PERÍODO RURAL PARA FINS DE APOSENTADORIA.


Posso utilizar meu período rural para fins de aposentadoria?

Quais são os documentos rurais que posso utilizar?

Onde conseguir esses documentos rurais?

Preciso de testemunhas?

Período rural e urbano em carteira de trabalho?

RESUMO:

          Há três espécies de aposentadorias, em tese, onde se pode utilizar o período rural trabalhado, mesmo sem registro em Carteira de Trabalho. 

          A primeira é aposentadoria por tempo de contribuição, sendo que a mulher necessita ter 30 (trinta) anos de trabalho, e o homem, 35 (trinta e cinco) anos de trabalho. Oportuno ressaltar que, após a reforma previdenciária, promulgada, em data de 12/11/2019, a aposentadoria por tempo de contribuição deixou de existir, salvo em dois casos, ou seja, direito adquirido e regras de transição. A propósito, nobre amigo leitor, para melhor entendimento sobre aposentadoria por tempo de contribuição, após a reforma previdenciária, veja um outro texto de minha autoria, a saber: APOSENTADORIA POR TEMPO DE CONTRIBUIÇÃO.

          A segunda, trata-se de aposentadoria rural por idade, sendo que o homem deve ter 60 (sessenta) anos de idade, e a mulher, 55 (cinquenta e cinco) anos de idade. A reforma previdenciária, ocorrida em data de 12/11/2019, nada alterou sobre essa questão.

          Neste caso, em regra, deve ser comprovado os últimos 15 (quinze) anos de trabalho na lavoura, anterior ao preenchimento do requisito etário/idade (homem 60 anos de idade e mulher 55 anos de idade). Deve-se ter como prova toda documentação rural pertinente, e ainda, três testemunhas que conheçam bem a pessoa para “falar em juízo”, sobre a vida rural do interessado em se aposentar.

          Já a terceira, refere-se a aposentadoria híbrida ou mista, no qual, a mulher, antes da reforma previdenciária, promulgada em 12/11/2019, necessitava ter 60 (sessenta) anos de idade, e o homem, 65 (sessenta e cinco) anos de idade. Após a aludida reforma previdenciária, a única alteração que teve, em regra, é a idade da mulher. Então homem permanece tendo como requisito 65 (sessenta e cinco) anos de idade e a mulher passou a exigir, em tese, 62 (sessenta e dois) anos de idade.

          Nessa espécie de aposentadoria (híbrida ou mista), soma-se o período rural, com período de contribuição/registro em Carteira de Trabalho (urbano), tendo que alcançar 15 (quinze) anos (carência) para fins de reconhecimento do benefício. Para melhores esclarecimentos sobre as três aposentadorias (tempo de contribuição, idade rural ou híbrida/mista), sugiro a leitura de um texto transparente e de fácil compreensão escrito por um colega de trabalho, a saber: QUEM TEM DIREITO À APOSENTAR-SE COMO TRABALHADOR RURAL?

          Apenas para que não pairem dúvidas, ou melhor, com o intuito de levar ainda mais informação ao caro amigo leitor, devemos lembrar que os documentos rurais, geralmente, servem para fins de aposentadoria por invalidez ou auxílio-doença.

Veja: NOÇÕES GERAIS SOBRE AUXÍLIO-DOENÇA

QUEM TEM DIREITO A COMPUTAR O PERÍODO RURAL?

          Todas as pessoas que exerceram atividades rurícolas, inclusive àquelas que posteriormente foram para cidade. Cita-se, como exemplo, àquelas pessoas que começaram sua vida no campo/lavoura, por lá ficaram até uma determinada idade, e posteriormente vieram residir na cidade, onde passaram a desempenhar trabalho urbano.

 Vamos facilitar, observe: 

         Carlos trabalhava com seus pais, na lavoura, quando ainda era criança, isto é, aos 10 (dez) anos de idade. Quando completou 20 (vinte) anos de idade, Carlos, se casou, e veio residir na cidade, onde passou a trabalhar como vendedor/comerciante/balconista, enfim, qualquer outro vínculo urbano. Neste caso, Carlos, poderá utilizar do vínculo rural trabalhado, mas não desde os 10 (dez) anos, e sim, 12 (doze) anos de idade, isto porque a Lei assim estabelece, ou seja, Carlos, teria para utilizar como tempo rural dos 12 (doze) anos de idade (é essa a idade reconhecida por lei), até os 20 (vinte) anos de idade (ocasião em que saiu do labor rural e obteve vínculo urbano), digo, Carlos, ganharia 08 (oito) anos em sua aposentadoria, obviamente, desde que comprovado.  

          Muito relevante dizer que todo trabalhador rural, anterior à data de 31/10/1991, pode ter o tempo de lavoura acrescentado na sua aposentadoria sem necessidade de ter contribuído para o INSS. Deixo um texto bastante pertinente ao caso, a saber: TRABALHOU NA ROÇA NA INFÂNCIA? VOCÊ PODE SE APOSENTAR POR IDADE.

QUAIS DOCUMENTOS POSSO UTILIZAR PARA PROVAR O PERÍODO RURAL?

          Esta é a parte mais delicada para quem quer reconhecer o período como trabalhador rural para sua aposentadoria. A Lei de Benefícios traz alguns documentos que são admitidos para provar a atividade rural, e outros que a jurisprudência entende que podem ajudar a comprovar.

          Para facilitar a vida do amigo leitor segue uma lista dos documentos mais fáceis e comuns de conseguir. Observe:

  • Contrato individual de trabalho ou CTPS;
  • Contrato de arrendamento, parceria ou comodato rural;
  • Declaração do Sindicato dos Trabalhadores Rurais;
  • Registro de imóvel rural;
  • Comprovante de cadastro do INCRA;
  • Bloco de notas do produtor rural;
  • Notas fiscais de entrada de mercadorias;
  • Documentos fiscais relativos a entrega de produção rural à cooperativa agrícola com indicação do segurado como vendedor ou consignante;
  • Atestado de profissão do prontuário de identidade, com identificação da sua profissão ou de seus pais como lavrador ou agricultor;
  • Certidão de nascimento dos seus irmãos, que nasceram no meio rural, com identificação da profissão de seus pais como lavrador ou agricultor;
  • Certidão de casamento com identificação da sua profissão como lavrador, se você casou ainda no meio rural;
  • Histórico escolar do período em que estudou na área rural, com indicação da profissão de seus pais como lavrador ou agricultor;
  • Certificado de reservista, com identificação da sua profissão ou de seus pais como lavrador ou agricultor.
  • Certidão de nascimento dos seus filhos, que nasceram no meio rural, com identificação da profissão de seus pais como lavrador ou agricultor;
  • Atestado de profissão do prontuário do Cartório Eleitoral, com identificação da sua profissão ou de seus pais como lavrador ou agricultor;

COMO CONSEGUIR OS DOCUMENTOS?

          Muitas pessoas desanimam quando se trata de conseguir a documentação necessária para comprovar o vínculo rural. Isso não deve acontecer, afinal os documentos não são de difícil acesso. Basta um pouco de paciência e obterá os documentos necessários para sua tão sonhada aposentadoria. Vale a pena “correr atrás”. Aliás, se nada fizer, ficará sem o benefício pelo resto de suas vidas, mas se for perseverante e tentar, terá possibilidade de conseguir se aposentar. Ora, não custa tentar!

Vamos lhe ajudar, meu amigo leitor:

Atestado de profissão do prontuário de identidade:  O atestado de profissão do prontuário de identidade serve para demonstrar qual era sua profissão na época em que você fez sua identidade. No Paraná, a solicitação deve ser feita pela internet no site da Secretaria da Segurança Pública, selecionando o serviço Atestado de Profissão. O próprio advogado faz essa diligência on line;

Cópias das certidões: A cópia autenticada da certidão de nascimento de seus irmãos ou filhos e sua certidão de casamento servem para demonstrar qual era a sua profissão ou de seus pais no momento da emissão do documento. Para conseguir as certidões de nascimento e casamento, você vai precisar do: nome completo de quem você quer a certidão; data do nascimento ou casamento; local do nascimento ou casamento. Com esses dados basta entrar em contato com o Cartório de Registro Civil do local de nascimento ou casamento e pedir uma certidão de inteiro teor do documento, onde provavelmente estará as profissões;

Histórico escolar do período em que estudou na área rural: Normalmente as pessoas guardam o histórico escolar. Mas se você não guardou pode ficar calmo. Para solicitar basta entrar em contato com a Secretária de Educação do Município que você estudou durante o período rural;

Certificado de reservista: Caso você não tenha mais seu certificado de reservista ele deverá ser solicitado na Junta Militar do local da prestação do serviço militar. Os melhores meses para solicitar este documento é entre Maio e Dezembro, que são os meses de baixo movimento no Alistamento Militar, e com isto irá ser bem mais rápido obter o documento. Os documentos necessários para a segunda via são: Cópia da carteira de identidade ou certidão de nascimento; Duas fotos 3×4 com fundo branco; Comprovante de residência;

Registro de imóvel rural: O registro de imóvel rural deve ser solicitado no Cartório de Registro de Imóveis do local do imóvel. Para conseguir este documento, você vai precisar do: nome completo do proprietário; CPF do proprietário; local da propriedade rural;

Certidão do INCRA:  Com a matrícula do imóvel rural em mãos, compareça ao INCRA do Estado do imóvel e solicite o Certificado de Cadastro de Imóvel Rural (CCIR). Este é um procedimento simples! No Paraná o INCRA fica localizado na Rua Dr. Faivre, 1.220, e é necessário comparecer pessoalmente para solicitar o CCIR;

Declaração do Sindicato dos Trabalhadores Rurais:  Basta comparecer, com todos os documentos que você já possui para comprovar o período como trabalhador rural, no Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município que você trabalhou no meio rural;

Contrato de arrendamento, parceria ou comodato rural: Trata-se de qualquer contrato, parceria ou comodato, enfim documento celebrado entre a pessoa interessada em se aposentar e uma outra pessoa, expondo a forma do contrato, em especial, a área rural a ser utilizada. Sempre que esses contratos são feitos cada pessoa fica com uma cópia, basta procurar “nas gavetas”;

Atestado de profissão do prontuário do Cartório Eleitoral: Basta seguir ao Cartório Eleitoral de onde fez o título de eleitor e pedir ao atendente uma certidão onde conste sua profissão na época da confecção do título eleitoral. Leve consigo RG, CPF, comprovante de residência e título de eleitor;

          Vale ressaltar que a lista acima é exemplificativa, ou seja, serve como base para comprovar o vínculo rural, pois quaisquer outros documentos que comprovem a atividade rural são válidos. Outro detalhe é que, em regra, não necessita todos os documentos acima relacionados, porém quanto mais documentos tiver, maiores as chances de conseguir se aposentar.

TESTEMUNHAS?

          Serão necessárias 03 (três) testemunhas que conheçam bem sobre sua vida, principalmente, para dizer que você trabalhou na lavoura, inclusive citando os locais e a forma de trabalho, de forma resumida. Não pode ser parentes (pais, avôs, irmãos, etc…).

 

PERÍODO URBANO E RURAL EM CARTEIRA DE TRABALHO?

          É possível conseguir benefício previdenciário mesmo tendo períodos urbanos e rurais em carteira de trabalho. Basta que o interessado consiga comprovar o trabalho durante o tempo mínimo necessário em atividade rural. Nesse caso, chamamos o benefício de aposentadoria Híbrida ou Mista e o trabalhador poderá se aposentar com a mesma idade exigida para a aposentadoria por idade urbana, ou seja, 62 anos de idade, se mulher, e 65 anos de idade, se homem.

          Nesses casos o trabalhador somará o tempo de trabalho rural ao tempo de contribuição urbana. Há um grande debate na Justiça, isto é, se o último trabalho deve ser rural e se para completar os 15 (quinze) anos exigidos na lei o segurado pode computar período rural trabalhado em um passado distante, quando criança, por exemplo. Na dúvida sobre qual será o direito aplicado pela Justiça, é melhor procurar um advogado especializado para analisar seu caso específico.

Veja:APOSENTADORIA POR IDADE NA FORMA HÍBRIDA: RURAL + URBANO

 

DECISÃO PERTINENTE AO CASO?

          Caso queira se aprofundar um pouco mais no assunto, recomendo que leia a decisão abaixo, que expressa o entendimento da Justiça Brasileira. Caso não queira dedicar um tempo a isso, recomendo que pule todo o texto em itálico abaixo:

APELAÇÃO CÍVEL Nº 5001547-89.2015.4.04.9999/PR

RELATOR : JOÃO BATISTA PINTO SILVEIRA
APELANTE : ANA ALICE SALES
ADVOGADO : THAIS TAKAHASHI
APELADO : INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL – INSS

RELATÓRIO

Trata-se de apelação interposta da sentença que julgou improcedente o pedido de concessão de Aposentadoria por Idade Rural, condenando a parte autora ao pagamento das custas processuais e dos honorários advocatícios, estes fixados em R$ 1.200,00 (um mil e duzentos reais), suspensa a exigibilidade de tais verbas em razão do deferimento da assistência judiciária gratuita.

Tempestivamente a parte autora recorre, postulando a reforma da decisão recorrida. Sustenta, em síntese, que: (a) há nos autos início de prova material hábil a comprovar o exercício da atividade rural como bóia-fria no período de carência exigido para a concessão do benefício, ainda que de forma descontínua, devidamente corroborada pela prova testemunhal; (b) o fato de a parte autora ter exercido atividades urbanas durante o período de carência não afasta, ipso facto a qualidade de segurada especial;

(c) a autora faz jus à concessão da Aposentadoria por Idade Rural, desde a data do requerimento administrativo, uma vez que preenchidos todos os requisitos estabelecidos para tanto pela legislação de regência.

Oportunizadas as contrarrazões, subiram os autos a esta Corte. É o relatório.

VOTO

A questão controversa nos autos cinge-se ao direito da parte autora à concessão de Aposentadoria por Idade Rural, desde a data do requerimento administrativo (27/02/2012).

Da atividade rural

Tratando-se de rurícola, cumpre ao julgador valorar os fatos e circunstâncias evidenciados com ênfase no artigo 5.º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro – LINDB, e levar em conta a realidade social em que inserido o trabalhador rural, na qual predomina a informalidade na demonstração dos fatos. Vale lembrar que não se mostra razoável exigir que os documentos carreados ao processo sigam sempre a forma prescrita em lei, por isso devem ser considerados válidos quando de outra forma atingir a finalidade precípua de comprovar o exercício da atividade rural, consoante disposto no art. 277 do CPC/2015.

Aos trabalhadores rurais, filiados à Previdência à época da edição da Lei n.º 8.213/91, que implementarem os requisitos da aposentadoria por idade no prazo de até quinze anos após a sua vigência (ou seja, até 24-07-2006), não se lhes aplica o disposto no art. 25, inciso II, mas a regra de transição prevista no art. 143, ambos da Lei de Benefícios.

Os requisitos para a aposentadoria por idade dos trabalhadores rurais filiados à Previdência à época da edição da Lei n.º 8.213/91 são, pois, os seguintes: (a) idade mínima de 60 anos para o homem e de 55 anos para a mulher (Lei n.º 8.213, art. 48, § 1º); e (b) efetivo exercício de atividade rural, ainda que de forma descontínua, por tempo igual ao período correspondente à carência do benefício (Lei n.º 8.213, art. 143). A concessão do benefício independe, pois, de recolhimento de contribuições previdenciárias.

Para a verificação do tempo que é necessário comprovar como de efetivo exercício do labor rural, considera-se a tabela constante do art. 142 da Lei de Benefícios, levando-se em conta o ano em que o segurado implementou as condições necessárias para a obtenção da aposentadoria, ou seja, idade mínima e tempo de trabalho rural.

Na aplicação dos artigos 142 e 143 da Lei de Benefícios, deve-se atentar para os seguintes pontos: a) ano-base para a averiguação do tempo rural (direito adquirido ou DER); b) termo inicial e final do período de trabalho rural correspondente à carência; c) termo inicial do direito ao benefício (DIB).

No mais das vezes, o ano-base para a constatação do tempo de serviço necessário será o ano em que o segurado completou a idade mínima, desde que até então já disponha de tempo rural suficiente para o deferimento do benefício. Em tais casos, o termo inicial do período a ser considerado como de efetivo exercício de labor rural, a ser contado retroativamente, é justamente a data do implemento do requisito etário, mesmo se o requerimento administrativo ocorrer em anos posteriores, em homenagem ao princípio do direito adquirido (Constituição Federal de 1988, art. 5º, inciso XXXVI; Lei de Benefícios, art. 102, § 1º).

Nada obsta, entretanto, que o segurado, completando a idade necessária, permaneça exercendo atividade agrícola até a ocasião em que implementar o número de meses suficientes para a concessão do benefício, caso em que tanto o ano-base para a verificação do tempo rural quanto o início de tal período de trabalho, sempre contado retroativamente, será justamente a data da implementação do tempo equivalente à carência.

No caso em que o requerimento administrativo e o implemento da idade mínima tenham ocorrido antes de 31-08-1994 (data da publicação da Medida Provisória n.º 598, que introduziu alterações na redação original do art. 143 da Lei de Benefícios, sucessivamente reeditada e posteriormente convertida na Lei n.º 9.063/95), o segurado deve comprovar o exercício de atividade rural, anterior ao requerimento, por um período de 5 anos (60 meses), não se aplicando a tabela do art. 142 da Lei n.º 8.213/91.

Em qualquer caso, o benefício de aposentadoria por idade rural será devido a partir da data do requerimento administrativo (STF, RExt nº 631240/MG, Rel. Ministro Roberto Barroso, Plenário, julgado em 03-09-2014), ou, inexistente este, da data da citação (STJ, REsp n. 1450119-MT, Primeira Seção, Rel. Ministro Benedito Gonçalves c/c o art. 219, § 1º, do CPC), o que não afasta o direito às parcelas anteriores aos cinco anos desde o ajuizamento. Interpretação em conformidade com o precedente desta Turma (APELRE nº 0020438-83.2014.404.9999), onde consignado que: ‘A interrupção da prescrição deve ser contada de forma retroativa à data do ajuizamento da ação, não da citação, nos termos do  art. 219, § 1º, do CPC, que não foi revogado tacitamente pelo art. 202, inc. I, do CC/02’ (Relatoria Desembargador Federal Celso Kipper, DJe de 11/02/2015). Conforme disposto no art. 240, § 1º, do CPC/2015: ‘A interrupção da prescrição, operada pelo despacho que ordena a citação, ainda que proferido por juízo incompetente, retroagirá à data da propositura da ação.’

Da demonstração da atividade rural

O tempo de serviço rural pode ser comprovado mediante a produção de prova material suficiente, ainda que inicial, complementada por prova testemunhal idônea – quando necessária ao preenchimento de eventuais lacunas – não sendo esta admitida exclusivamente, a teor do disposto no art. 55, § 3º, da Lei n.º 8.213/91, e na Súmula n.º 149 do STJ. Embora o art. 106 da Lei de Benefícios relacione os documentos aptos a essa comprovação, tal rol não é exaustivo, sendo certa a possibilidade de alternância das provas ali referidas. 

Nos casos de trabalhadores informais, especialmente em labor rural de boia-fria, a dificuldade de obtenção de documentos permite maior abrangência na admissão do requisito legal de início de prova material, valendo como tal documentos não contemporâneos ou mesmo em nome terceiros (integrantes do grupo familiar, proprietários de terras, arrendatários). 

Assim, não se exige prova documental plena da atividade rural de todo período correspondente à carência, de forma a inviabilizar a pretensão, mas início de prova material (v.g. certidões de casamento, de nascimento, de óbito, certificado de dispensa de serviço militar, ficha de atendimento no SUS, comprovante de matrícula em escola situada na zona rural, cadastros, etc.), que juntamente com a prova oral crie um liame com a circunstância fática que se quer demonstrar, possibilitando um juízo de valor seguro acerca dos fatos a comprovar.

A respeito do ‘boia-fria’, o Superior Tribunal de Justiça no julgamento do Resp n. 1.321.493-PR, recebido pela Corte como recurso representativo da controvérsia, traçou as seguintes diretrizes:

RECURSO ESPECIAL. MATÉRIA REPETITIVA. ART. 543-C DO CPC E RESOLUÇÃO STJ 8/2008. RECURSO REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. SEGURADO ESPECIAL. TRABALHO RURAL. INFORMALIDADE. BOIAS-FRIAS. PROVA EXCLUSIVAMENTE TESTEMUNHAL. ART. 55, § 3º, DA LEI 8.213/1991. SÚMULA 149/STJ. IMPOSSIBILIDADE. PROVA MATERIAL QUE NÃO ABRANGE TODO O PERÍODO PRETENDIDO. IDÔNEA E ROBUSTA PROVA TESTEMUNHAL. EXTENSÃO DA EFICÁCIA PROBATÓRIA. NÃO VIOLAÇÃO DA PRECITADA SÚMULA.

Trata-se de Recurso Especial do INSS com o escopo de combater o abrandamento da exigência de produção de prova material, adotado pelo acórdão recorrido, para os denominados trabalhadores rurais boias-frias.

A solução integral da controvérsia, com fundamento suficiente, não caracteriza ofensa ao art. 535 do CPC.

Aplica-se a Súmula 149/STJ (‘A prova exclusivamente testemunhal não basta à comprovação da atividade rurícola, para efeitos da obtenção de benefício previdenciário’) aos trabalhadores rurais denominados ‘boias-frias’, sendo imprescindível a apresentação de início de prova material.

Por outro lado, considerando a inerente dificuldade probatória da condição de trabalhador campesino, o STJ sedimentou o entendimento de que a apresentação de prova material somente sobre parte do lapso temporal pretendido não implica violação da Súmula 149/STJ, cuja aplicação é mitigada se a reduzida prova material for complementada por idônea e robusta prova testemunhal.

No caso concreto, o Tribunal a quo, não obstante tenha pressuposto o afastamento da Súmula 149/STJ para os ‘boias-frias’, apontou diminuta prova material e assentou a produção de robusta prova testemunhal para configurar a recorrida como segurada especial, o que está em consonância com os parâmetros aqui fixados.

Recurso Especial do INSS não provido. Acórdão submetido ao regime do art. 543-C do CPC e da Resolução 8/2008 do STJ. (grifo nosso)

Saliente-se que, no referido julgamento, o STJ manteve decisão deste Regional que concedeu aposentadoria por idade rural a segurado que, tendo completado a idade necessária à concessão do benefício em 2005 (sendo, portanto, o período equivalente à carência de 1993 a 2005), apresentou, como prova do exercício da atividade agrícola, sua CTPS, constando vínculo rural no intervalo de 01-06-1981 a 24-10-1981, entendendo que o documento constituía início de prova material.

Com efeito, sobressai do julgado que o rigor na análise do início de prova material para a comprovação do labor rural do boia-fria, diarista ou volante, deve ser mitigado, de sorte que o fato de a reduzida prova documental não abranger todo o período postulado não significa que a prova seja exclusivamente testemunhal quanto aos períodos faltantes. Assim, devem ser consideradas as dificuldades probatórias do segurado especial, sendo prescindível a apresentação de prova documental de todo o período, desde que o início de prova material seja consubstanciado por robusta prova testemunhal.

Portanto, o atual entendimento do Superior Tribunal de Justiça é no sentido de se admitir como início de prova material documento extemporâneo ao período correspondente à carência do benefício, conforme sedimentado no Resp nº 1.321.493-PR. 

Os documentos apresentados em nome de terceiros, sobretudo quando pai ou cônjuge, consubstanciam início de prova material do labor rural, conforme preceitua a Súmula 73 deste Tribunal: ‘Admitem-se como início de prova material do efetivo exercício de atividade rural, em regime de economia familiar, documentos de terceiros, membros do grupo parental’.

Assim, as certidões da vida civil são hábeis a constituir início probatório da atividade rural da parte autora, nos termos na jurisprudência pacífica do Superior Tribunal de Justiça (REsp n.º 980.065/SP, Quinta Turma, Rel. Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, j. em 20-11-2007, DJU, Seção 1, de 17-12-2007, p. 340, e REsp n.º 637.437/PB, Relatora Ministra Laurita Vaz, Quinta Turma, j. em 17-08-2004, DJU, Seção 1, de 13-09-2004, p. 287, REsp n.º 1.321.493-PR, Primeira Seção, Relator Ministro Herman Benjamim, DJe em 19-12-2012, submetido à sistemática dos recursos repetitivos.).

Quando se trata de mulheres, a prova se torna ainda mais difícil, pois se sabe que quando existiam documentos, estes eram lançados em nome do chefe da família onde, há certo tempo, era o único membro familiar a possuir direito à aposentadoria, de modo que deixar de atribuir-lhe a qualidade de trabalhadora rural em face da inexistência de documento em nome próprio, qualificando-a como tal, redunda em grande injustiça com as mulheres ativas neste tipo de trabalho árduo em que trabalham tanto quanto ou muitas vezes ainda mais que os homens.

Registro, por oportuno, que o Superior Tribunal de Justiça e esta Corte já pacificaram o entendimento de que o trabalhador rural boia-fria deve ser equiparado ao segurado especial de que trata o art. 11, VII, da Lei de Benefícios, sendo-lhe dispensado, portanto, o recolhimento das contribuições para fins de obtenção de benefício previdenciário. Nesse Sentido:

PROCESSUAL CIVIL E PREVIDENCIÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. APOSENTADORIA RURAL POR IDADE. BOIA-FRIA. CONDIÇÃO DE SEGURADO ESPECIAL. SÚMULA 7/STJ. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO.

A questão do recurso especial gira em torno do reconhecimento do direito à aposentadoria por idade, na condição de segurado especial boia-fria.

O Tribunal a quo ao afirmar ao afirmar que não há início razoável de prova material devidamente corroborada pela prova testemunhal, aplicou a jurisprudência do STJ consolidada no sentido de que: 1) a prova testemunhal deve ser conjugada com início de prova material; 2) não é imperativo que o início de prova material diga respeito a todo período de carência estabelecido pelo art. 143 da Lei 8.213/91, desde que a prova testemunhal amplie sua eficácia probatória.

A revisão do entendimento firmado pelo Tribunal a quo, que afirmou a inexistência de conjunto probatório harmônico acerca do efetivo exercício de atividade rural, encontra óbice na Súmula 7/STJ.

Agravo regimental não provido. (STJ, Agravo Regimental no Agravo em Recurso Especial nº 390.932. Relator Ministro Mauro Campbell Marques. DJE: 22-10-2013, grifo nosso)

PREVIDENCIÁRIO. APELAÇÃO CÍVEL. SALÁRIO-MATERNIDADE. PRESCRIÇÃO. SEGURADA BOIA-FRIA. COMPROVAÇÃO. CONCESSÃO DO BENEFÍCIO. DESNECESSIDADE DE RECOLHIMENTO DE CONTRIBUIÇÕES.

Não deve ser acolhida a prejudicial de prescrição se entre o nascimento e o ajuizamento da ação, uma vez que não havendo prévio requerimento administrativo, não se passaram cinco anos.

Demonstrada a maternidade e a qualidade de segurada especial, mediante início razoável de prova testemunhal, durante período equivalente ao da carência, é devido o salário-maternidade.

Esta Corte já pacificou o entendimento de que o trabalhador rural boia-fria deve ser equiparado ao segurado especial de que trata o art. 11, VII, da Lei de Benefícios, sendo-lhe dispensado, portanto, o recolhimento das contribuições para fins de obtenção de benefício previdenciário. (TRF4, Apelação Cível nº 0017780-28.2010.404.9999. Relatora: Desembargadora Federal Vânia Hack de Almeida. DJE: 21-05-2014, grifo nosso)

Acerca do exercício da atividade rural no período imediatamente anterior ao requerimento administrativo, cumpre referir o entendimento do STJ no julgamento do recurso especial repetitivo nº 1.354.908/SP, vinculado ao Tema nº 642, representativo de controvérsia, assim ementado:

PROCESSUAL CIVIL E PREVIDENCIÁRIO. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA. APOSENTADORIA POR IDADE RURAL. COMPROVAÇÃO DA ATIVIDADE RURAL NO PERÍODO IMEDIATAMENTE ANTERIOR AO REQUERIMENTO. REGRA DE TRANSIÇÃO PREVISTA NO ARTIGO 143 DA LEI 8.213/1991. REQUISITOS QUE DEVEM SER PREENCHIDOS DE FORMA CONCOMITANTE. RECURSO ESPECIAL PROVIDO.

Tese delimitada em sede de representativo da controvérsia, sob a exegese do artigo 55, § 3º combinado com o artigo 143 da Lei 8.213/1991, no sentido de que o segurado especial tem que estar laborando no campo, quando completar a idade mínima para se aposentar por idade rural, momento em que poderá requerer seu benefício. Se, ao alcançar a faixa etária exigida no artigo 48, § 1º, da Lei 8.213/1991, o segurado especial deixar de exercer atividade rural, sem ter atendido a regra transitória da carência, não fará jus à aposentadoria por idade rural pelo descumprimento de um dos dois únicos critérios legalmente previstos para a aquisição do direito.Ressalvada a hipótese do direito adquirido em que o segurado especial preencheu ambos os requisitos de forma concomitante, mas não requereu o benefício. 2. Recurso especial do INSS conhecido e provido, invertendo-se o ônus da sucumbência. Observância do art. 543-C do Código de Processo Civil (REsp 1354908/SP, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 09/09/2015, DJe 10/02/2016. (Grifou-se.)

Do caso concreto

A parte autora preencheu o requisito etário (55 anos), em 23/07/2009, porquanto nascida em 23/07/1954, e requereu o benefício na via administrativa em 27/02/2012. Assim, deve comprovar o efetivo exercício de atividade rural no período de 168 meses anteriores ao implemento do requisito etário ou de 180 meses anteriores ao requerimento administrativo, o que lhe for mais favorável.

Para comprovar o trabalho agrícola no período de carência, a parte autora juntou aos autos os seguintes documentos:

a) certidão de nascimento, constando o genitor qualificado como lavrador (evento 1 – OUT8);

b) CTPS, com anotações de vínculos empregatícios como trabalhador rural nos períodos de 04/03/1985 a 28/06/1985, 03/03/1986 a 05/07/1986, 25/05/1987 a 02/07/1987, 25/11/1987 a 18/02/1988, 16/08/1991 a 14/11/1991, 08/06/1994 a 04/08/1994, 05/12/1994 a 13/04/1995, 01/06/1995 a 19/07/1995, 15/06/1996 a 20/07/1996, 01/06/1998 a 04/07/1998, 07/07/1998 a 05/09/1998, 02/01/1999 a 03/05/1999, 10/05/1999 a 14/07/1999, 15/07/1999 a 18/08/1999, 24/05/2000 a 20/07/2000, 24/08/2000 a 13/10/2000, e 19/05/2011 a 02/08/2011; e com vínculos urbanos, como operária e selecionadora de alho, nos períodos de 01/12/1997 a 09/01/1998, 04/05/2001 a 12/08/2003, 01/09/2004 a 30/03/2005, 01/03/2006 a 31/03/2008, e 01/12/2008 a 08/10/2010.

No caso, os documentos juntados aos autos constituem início razoável de prova material de que a autora exerceu o labor rural como boia-fria de 03/1985 a 12/1997, de 06/1998 a 10/2000, e a partir de 10/2010.

A prova testemunhal produzida em juízo em 12/03/2014 (evento 35 e vídeos anexos ao evento 58) foi precisa e convincente acerca do trabalho rural da parte autora como boia-fria durante o período de carência do benefício, conforme se verifica dos depoimentos colhidos em audiência:

Depoimento pessoal da parte autora:

Que começou a trabalhar na roça aos nove anos de idade; que seu primeiro trabalho registrado foi em 1985, mas já trabalhava antes, para Takao e Antonio Nakamura; que carpia, e colhia café e algodão; que morou por dez anos, com o pai, na propriedade de Antonio Nakamura; que o pai era porcenteiro no local, e plantava café, intercalado com feijão e milho; que depois foi morar na cidade e começou a trabalhar como bóia-fria; que trabalhou para Itimura, e nas propriedades Santa Isabel, Rafaela, São Luiz e Santa Alice, com registro; que passou um tempo em Minas Gerais; que trabalhou sem registro em uma empresa de alho, do proprietário Reinaldo Reghin, por três anos, após os quais passou a registrar; que agora está trabalhando na lavoura, sem registro, novamente para Itimura.

Maria José de Souza:

Que conhece a autora há em torno de trinta anos; que na época a autora trabalhava na roça, para os Itimura; que a depoente morava perto da autora, e ambas trabalharam juntas nas fazendas Bela Vista, Rafaela e Santa Isabel; que a autora tem trabalhado atualmente na fazenda do Itimura; que depois dessa época trabalharam juntas na fábrica de Reinaldo Reghin; que, depois que ‘fracassou o serviço’ na fábrica, a autora voltou para a roça; que, na fábrica, exerciam a função de classificadoras de alho; que trabalharam por doze anos nesse local, dos quais três foram sem registro.

Fabiano Aureliano:

Que conhece a autora desde 1974; que ela sempre foi trabalhadora da roça; que ela trabalhou para Eduardo Ito, em Minas Gerais; que ela tinha registro nesse local; que ela trabalhou sem registro para Paulo e Itimura, e diversos outros que o depoente não lembra os nomes, pois a cada dia a autora ia a um sítio diferente; que a autora trabalhou por vários anos na empresa de alho de Reinaldo Reghin, sendo por uns três anos sem registro; que ela começou a trabalhar nesse local em torno de 1996; que não lembra nomes de proprietários de lavouras para quem a autora trabalhou sem registro, pois era um serviço bastante dividido, em vários locais; que a autora ainda trabalha atualmente, na fazenda do Itimura; que vê a autora se deslocando de caminhão; que ela está lidando com laranja.

Maurício de Souza:

Que conhece a autora faz quinze a vinte anos; que a autora trabalhou com o depoente na uva e no café, depois ela foi para Minas Gerais e perderam contato; que trabalharam na roça para Itimura e para um português, sem registro em carteira; que isso foi há uns oito anos atrás; que ela ainda trabalha atualmente, lidando com laranja na fazenda do Itimura; que sabe que ela trabalhou para Reghin, mas não sabe por quanto tempo; que sabe que a autora trabalha atualmente porque moram próximos, e ela pega condução em frente à casa do depoente.

Da descontinuidade:

O tema da descontinuidade merece especial atenção tendo em vista a controvérsia estabelecida em torno da melhor interpretação a ser conferida ao termo.

Assim, no que diz respeito à possibilidade do cômputo de períodos rurais intercalados para efeitos de concessão de aposentadoria por idade rural, uma vez demonstrada a condição de segurado especial no período imediatamente anterior ao requerimento administrativo ou no implemento do requisito etário, impõem-se tecer algumas considerações. 

Acerca do exercício de atividade rural intercalado com curtos períodos de atividade urbana, que estaria albergado no conceito de descontinuidade, assim entendeu esta Turma no julgamento da AC nº 0006519-95.2012.404.9999, relator Des. Federal Celso Kipper (D.E. 10/02/2015, publicação em 11/02/2015):

‘A respeito do interregno que pode ser considerado como curto período de não exercício do trabalho campesino, para o efeito de não descaracterizar a condição de segurado especial e possibilitar a perfectibilização do período equivalente ao da carência, ficando a interrupção, dessa forma, albergada no conceito de descontinuidade, tenho o entendimento de que deve ser associado, por analogia, ao período de graça estabelecido no art. 15 da Lei de Benefícios, podendo chegar, portanto, conforme as circunstâncias, ao máximo de 38 meses [24+12+2]. Esta exegese, no tocante à utilização do período de graça do art. 15 da Lei de Benefícios como parâmetro de aferição do tempo de descontinuidade permitido, tem ressonância no âmbito do Superior Tribunal de Justiça, como se observa de recente julgamento da Primeira Turma do Superior Tribunal de Justiça, de relatoria do Ministro Arnaldo Esteves Lima, assim ementado:

PREVIDENCIÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. SEGURADO ESPECIAL. ART. 11, § 9º, III, DA LEI 8.213/91 COM A REDAÇÃO ANTERIOR À LEI 11.718/08. EXERCÍCIO DE ATIVIDADE URBANA NO PERÍODO DE CARÊNCIA. ADOÇÃO, POR ANALOGIA, DOS PRAZOS DO PERÍODO DE GRAÇA. ART. 15 DA LEI 8.213/91. AGRAVO NÃO PROVIDO.

Os arts. 39, I, e 143 da Lei 8.213/91 dispõem que o trabalhador rural enquadrado como segurado obrigatório no Regime Geral de Previdência Social na forma da VII do art. 11 [segurado especial], tem direito a requerer aposentadoria por idade, no valor de um salário mínimo, desde que comprove o exercício de atividade rural, ainda que descontínua, no período imediatamente anterior ao requerimento do benefício, em número de meses idêntico à carência do referido benefício.

A norma previdenciária em vigor à época do ajuizamento da ação, antes do advento da Lei 11.718/08, não especificava, de forma objetiva, quanto tempo de interrupção na atividade rural seria tolerado para efeito da expressão legal ‘ainda que de forma descontínua’.

A partir do advento da Lei 11.718/08, a qual incluiu o inciso III do § 9º do art. 11 da Lei 8.213/91, o legislador possibilitou a manutenção da qualidade de segurado especial quando o rurícola deixar de exercer atividade rural por período não superior a cento e vinte dias do ano civil, corridos ou intercalados, correspondentes ao período de entressafra. Todavia, a referida regra, mais gravosa e restritiva de direito, é inaplicável quando o exercício da atividade for anterior à inovação legal.

A teor do disposto nos arts. 4º e 5º da Lei de Introdução às Normas de Direito Brasileiro – LINDB, diante da ausência de parâmetros específicos indicados pelo legislador originário, mostra-se mais consentânea com o princípio da razoabilidade a adoção, de forma analógica, da regra previdenciária do art. 15 da Lei 8.213/91, que garante a manutenção da qualidade de segurado, o chamado ‘período de graça’.

Demonstrado que a parte recorrente exerceu atividade urbana por período superior a 24 (vinte e quatro) meses no período de carência para a aposentadoria rural por idade, forçosa é a manutenção do acórdão recorrido.

Agravo regimental não provido.

(AgRg no REsp 1354939/CE, Rel. Ministro ARNALDO ESTEVES LIMA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 16/06/2014, DJe 01/07/2014)

Ressalte-se, ainda, que a interpretação acima é plenamente aplicável nas seguintes circunstâncias: a) aos períodos equivalentes à carência compreendidos, total ou parcialmente, em tempo anterior à publicação da Lei n.º 11.718/2008, independentemente de a descontinuidade no trabalho rural consistir em completa inatividade ou decorrer de atividade urbana remunerada; b) aos períodos equivalentes à carência que se seguirem à publicação da aludida lei (total ou parcialmente), quando a descontinuidade no trabalho rural consistir em inatividade.

Tratando-se, porém, (c) de período equivalente à carência que se perfectibilizar sob a égide da Lei n.º 11.718/2008, que acrescentou o parágrafo 9º ao art. 11 da Lei de Benefícios, e da Lei n.º 12.873/2013 (que alterou a redação do seu inciso III), no tocante à porção de tempo posterior a tais leisquando a descontinuidade for decorrente de atividade urbana remunerada, deve-se ter como norte o estabelecido nas aludidas leis, ou seja, considera-se possível a interrupção no trabalho rural sem descaracterizar a condição de segurado especial se o exercício de atividade remunerada não exceder a 120 (cento e vinte) dias, corridos ou intercalados, no ano civil.’

Todavia, tratando-se de período perfectibilizado antes da Lei nº 11.718, de 20-06-2008, vou além da consideração da descontinuidade pelo limite máximo do período de graça, cumprindo lembrar que a aplicação da hipótese do item ‘c’ para afastar a contagem de alguns anos civis, não exclui a possibilidade de consideração de períodos pretéritos de labor rural, anteriores à vigência da Lei nº 11.718, de 20-06-2008. Nessa compreensão não há qualquer incongruência com o entendimento da Turma, desde que seja adotado como critério de inclusão.

A propósito da linha que adoto, a fim de evitar tautologia, passo a transcrever a fundamentação adotada no julgamento da Apelação/Reexame Necessário n.º 002134473.2014.404.9999/PR, sessão de 09-12-2014 (DJE de 21/01/2015), por unanimidade, pelo Des. Federal Rogério Favreto, assim assentada pela Quinta Turma desta Corte:

‘(…)

Passo, então, a análise da questão, iniciando por reproduzir o art. 143 da Lei nº 8.213/91, que estabeleceu regra transitória para a concessão de aposentadoria por idade em favor dos trabalhadores rurais enquadrados como segurado especiais, nestes termos:

‘Art. 143. O trabalhador rural ora enquadrado como segurado obrigatório no Regime Geral de Previdência Social, na forma da alínea ‘a’ do inciso I, ou do inciso IV ou VII do art. 11 desta Lei, pode requerer aposentadoria por idade, no valor de um salário mínimo, durante quinze anos, contados a partir da data de vigência desta Lei, desde que comprove o exercício de atividade rural, ainda que descontínua, no período imediatamente anterior ao requerimento do benefício, em número de meses idêntico à carência do referido benefício. (Redação dada pela Lei nº. 9.063, de 1995)’

Necessário, antes de adentrar no exame da descontinuidade, estabelecer claramente sobre o trecho do dispositivo legal citado, na parte que trata da exigência de comprovação de atividade rural, no período imediatamente anterior ao requerimento administrativo.

Referida exigência diz respeito à necessidade de ostentar a qualidade de segurada especial no momento da implementação de todos os requisitos (idade e carência), tomando como referência, via de regra, os parâmetros exigidos na data do requerimento administrativo, ou, então, no momento em que completada a idade mínima para a inativação (55 anos para mulheres ou 60 anos para homens). Vale dizer, deve o segurado provar o exercício de atividade rural desempenhada até o momento imediatamente anterior à implementação de todos os requisitos para a concessão do benefício, pois no caso específico da aposentadoria dos segurados especiais, ao contrário da aposentadoria por idade prevista no caput do artigo 48 da Lei de Benefícios, não lhes se assegura a inovação trazida pelo artigo 3º, da Lei nº 10.666/03, no sentido de que os requisitos para a inativação não precisam ser preenchidos simultaneamente. Isso, aliás, já conta com manifestação do Superior Tribunal de Justiça, conforme se extrai do seguinte julgado, in verbis:

PREVIDENCIÁRIO. APOSENTADORIA RURAL POR IDADE. REQUISITOS: IDADE E COMPROVAÇÃO DA ATIVIDADE AGRÍCOLA NO PERÍODO IMEDIATAMENTE ANTERIOR AO REQUERIMENTO. ARTS. 26, I, 39, I, E 143, TODOS DA LEI N. 8.213/1991. DISSOCIAÇÃO PREVISTA NO § 1º DO ART. 3º DA LEI N. 10.666/2003 DIRIGIDA AOS TRABALHADORES URBANOS. PRECEDENTE DA TERCEIRA SEÇÃO.

(…)

Não se mostra possível conjugar de modo favorável ao trabalhador rural a norma do § 1º do art. 3º da Lei n. 10.666/2003, que permitiu a dissociação da comprovação dos requisitos para os benefícios que especificou: aposentadoria por contribuição, especial e por idade urbana, os quais pressupõem contribuição.

(…)

(Pet 7476/PR, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, Rel. p/ Acórdão Ministro JORGE MUSSI, TERCEIRA SEÇÃO, julgado em 13/12/2010, DJe 25/04/2011)

Logo, o segurado especial deve demonstrar o desempenho de atividade rural no período imediatamente anterior ao requerimento administrativo pelo número de meses idêntico à carência, ou, então, na data do implemento do requisito etário. Nesses termos, o seguinte precedente do Superior Tribunal de Justiça serve de exemplo concreto a tudo o que foi dito acima. Vejamos:

PREVIDENCIÁRIO. RURAL. PERÍODO DE CARÊNCIA. EXERCÍCIO DE ATIVIDADE RURAL. NÃO DEMONSTRAÇÃO.

(…)

Segundo a instância ordinária, o conjunto fático- probatório dos autos não foi suficiente para demonstrar o labor rural em regime de economia familiar, pois a prova testemunhal atestou que a autora não trabalha no campo há mais de 10 anos e que desenvolve atividade não rural para sua subsistência.

O implemento da idade para aposentadoria, por seu turno, ocorreu em 2005, ou seja, após o abandono das lides no meio rural. 4. Assim, não se verifica, no caso, o exercício de atividade rurícola no período imediatamente anterior ao requerimento, pelo número de meses idêntico à carência.

(…)

(AgRg no REsp 1294351/MG, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 07/02/2012, DJe 05/03/2012)

 

Essa, em síntese, é a compreensão que tenho sobre a exigência de comprovação de atividade rural ‘no período imediatamente anterior ao requerimento do benefício’, contida no artigo 143, estendendo idêntica conclusão à regra estabelecida no artigo 39, que estabelece as regras permanentes para a aposentadoria dos segurados especiais, ambos da Lei de Benefícios.

Passo, agora, à análise da expressão descontínua, reiterando a exigência de possuir a qualidade de segurado especial, seja por ocasião do requerimento administrativo, seja na data da implementação do requisito etário, como condição para admissão de períodos de labor rural, mesmo que intercalados, para fins de concessão da aposentadoria por idade ao trabalhador rural.

Diz, o artigo 143, que o segurado deve demonstrar o exercício de atividade rural pelo número de meses correspondentes à carência exigida, ainda que de forma descontínua.

De regra, elege-se o marco que definirá o número de contribuições correspondentes à carência necessária para a concessão do benefício (implemento da idade ou o requerimento administrativo). No caso da aposentadoria rural por idade, cabe esclarecer, o número de contribuições equivale ao tempo de labor rural independentemente do recolhimento daquelas. Em seguida, são fixados os marcos iniciais e finais e, dentro desses limites, incumbe à parte demonstrar o exercício de trabalho rural pelos números de meses correspondentes à carência.

Apresento o seguinte exemplo para melhor compreensão: implementada a idade no ano de 2011 e requerido nessa mesma data a aposentadoria por idade rural, deverá o segurado demonstrar o exercício de atividade rural pelo período equivalente a 180 meses. Deve, pois, provar que exerceu atividades rurais entre 1995 e 2011. 

A interpretação tradicional conferida ao termo ‘descontínua’ orienta-se no sentido de admitir interrupções do exercício das atividades campesinas, durante o período de carência, desde que o afastamento não implique perda da condição de segurado especial. De qualquer forma, deve o segurado demonstrar o desempenho de atividade rural dentro daquele intervalo estabelecido no momento em que implementados os requisitos para a concessão do benefício.

Essa orientação, de outra parte, não se aplica aos segurados que postulam a concessão de aposentadoria por idade urbana, pois para estes se admite a soma de todos os períodos contributivos para fins de carência, ainda que entre um e outro tenha ocorrido a perda da qualidade de segurado da previdência, com posterior reaquisição desse status. E mais, tais requisitos não precisam ser implementados simultaneamente, à luz do disposto no 3º da Lei nº 10.666/2003. Dita autorização legal, contudo, não alcança os segurados que pretendem a concessão de aposentadoria rural por idade, nos termos do precedente do STJ anteriormente citado.

A limitação do alcance da descontinuidade, estabelecida em relação aos trabalhadores rurais, conforme acima declinado, é fruto da interpretação há muito tempo adotada nos Tribunais. De qualquer forma, não há na Lei de Benefícios, seja no artigo 143 ou mesmo no artigo 39, expressa vedação quanto à admissão de interregnos de labor rural intercalados para fins de complementação da carência do benefício.

Exige-se, como visto, a demonstração de exercício de atividade rural, na condição de segurado especial, no lapso imediatamente anterior ao requerimento administrativo ou na data do implemento do requisito etário. Eventuais interrupções das atividades campesinas, decorrentes de vínculos urbanos ou mesmo de inatividade, não são contempladas pela legislação previdenciária como causa impeditiva do aproveitamento de períodos de labor rural intercalados.

Dessa forma, face à ausência de vedação legal na Lei de Benefícios quanto à admissão de períodos intercalados de labor rural para fins de concessão de aposentadoria por idade dos segurados especiais, nada impede admitir a revisão do entendimento acerca da definição da descontinuidade do trabalho rural para fins de composição da carência. De acrescentar, ainda, outro fundamento relevante no sentido de que a ‘adoção de entendimento restritivo quanto ao conceito de descontinuidade acaba por deixar ao desamparo segurados que desempenharam longos períodos de atividade rural, mas por terem intercalado períodos significativos de atividade urbana ou mesmo de inatividade, restam excluídos da proteção previdenciária’, nas palavras do Des. Federal Ricardo Teixeira do Valle Pereira, quando aborda a cláusula da descontinuidade.

Conquanto não haja vedação legal, é fato que o regramento interno do INSS autoriza a admissão de períodos de trabalho rural intercalados com períodos de atividade urbana para fins dos benefícios previstos no inciso I do artigo 39 e artigo 143, da Lei de Benefícios, desde que a carência seja preenchida exclusivamente com tempo de exercício de labor rural. A propósito, vejamos a redação dos artigos 145, 148, 214 e 215, da Instrução Normativa INSS/PRES 45, de 06/08/2010:

Art. 145. No caso de comprovação de desempenho de atividade urbana entre períodos de atividade rural, com ou sem perda da qualidade de segurado, poderá ser concedido benefício previsto no inciso I do art. 39 e art. 143, ambos da Lei nº 8.213, de 1991, desde que cumpra o número de meses de trabalho idêntico à carência relativa ao benefício, exclusivamente em atividade rural, observadas as demais condições.

Parágrafo único. Na hipótese de períodos intercalados de exercício de atividade rural e urbana, observado o disposto nos arts. 149 e 216, o requerente deverá apresentar um documento de início de prova material do exercício de atividade rural após cada período de atividade urbana.

Art. 148. Para fins de concessão dos benefícios devidos ao trabalhador rural previstos no inciso I do art. 39 e art. 143, ambos da Lei nº 8.213, de 1991, considera-se como período de carência o tempo de efetivo exercício de atividade rural, ainda que de forma descontínua, correspondente ao número de meses necessários à concessão do benefício requerido, computados os períodos a que se referem os incisos III a VIII do § 5º do art. 7º, observando-se que:

(…)

Parágrafo único. Entende-se como forma descontínua os períodos intercalados de exercício de atividades rurais, ou urbana e rural, com ou sem a ocorrência da perda da qualidade de segurado, observado o disposto no art. 145.

Art. 214. A aposentadoria por idade dos trabalhadores rurais referidos na alínea ‘a’ do inciso I, na alínea ‘g’ do inciso V e nos incisos VI e VII do art. 11 da Lei nº 8.213, de 1991, será devida para o segurado que, cumprida a carência exigida, completar sessenta anos de idade, se homem, e cinquenta e cinco anos, se mulher.

1º Para os efeitos do disposto no caput, o trabalhador rural deverá comprovar o efetivo exercício de atividade rural, ainda que de forma descontínua, no período imediatamente anterior ao requerimento do benefício, ou, conforme o caso, ao mês em que cumpriu o requisito etário, por tempo igual ao número de meses de contribuição correspondente à carência exigida.

(…)

Art. 215. Para fins de aposentadoria por idade prevista no inciso I do art. 39 e art. 143 da Lei nº 8.213, de 1991 dos segurados empregados, contribuintes individuais e especiais, referidos na alínea ‘a’ do inciso I, na alínea ‘g’ do inciso V e no inciso VII do art. 11 do mesmo diploma legal, não será considerada a perda da qualidade de segurado os intervalos entre as atividades rurícolas, devendo, entretanto, estar o segurado exercendo a atividade rural ou em período de graça na DER ou na data em que implementou todas as condições exigidas para o benefício.

(…)

Da leitura dos dispositivos transcritos é possível constatar que os fundamentos lançados linhas acima encontra respaldo nas disposições normativas editadas pelo órgão responsável pela concessão de benefícios. Vale dizer, a descontinuidade, vista sobre essa nova orientação, permite o aproveitamento de períodos intercalados de atividade rural, com ou sem a perda da qualidade de segurado, para integrar a carência necessária à concessão de aposentadoria por idade dos segurados especiais. E mais, o afastamento da atividade campesina não é considerado fator determinante, desde que no período imediatamente anterior ao requerimento ostente a condição de segurado especial.

A descontinuidade com a adoção desses parâmetros visa à reparação de profunda injustiça em relação àquele trabalhador que dispensou vários anos de sua vida exercendo atividade rural, notadamente exercida com sacrifício físico e pouca recompensa financeira, porém por circunstâncias diversas possui em seu histórico registro de vínculos urbanos, ou mesmo interrupção de atividade, e que ficará, adotando-se a posição restritiva, desamparado no momento mais sensível de sua vida, qual seja quando já possui idade avançada e sofre com as conseqüências inerentes da idade. Fica, com isso, garantido a merecida ‘recompensa’ pelos anos de trabalho, tal como assegurado ao trabalhador urbano, à luz do princípio da isonomia, e também em observância aos direitos assegurados nos artigos 6º e 7º, inciso XXIV, ambos da Constituição Federal.

Anoto e reitero, tal como já exposto, que o segurado deverá demonstrar o exercício de atividade rural no período imediatamente anterior ao requerimento administrativo ou do implemento do requisito etário.

E assim sendo, indaga-se nesse estágio da abordagem do tema sobre o quanto de tempo de labor rural deverá a parte demonstrar no período imediatamente anterior ao requerimento. Isso é importante definir para evitar com que eventualmente ocorra a iniciativa por parte daqueles que somente às vésperas de postular o benefício retornem ao meio rural com a finalidade de obter a aposentadoria por idade dos segurados especiais, aproveitando-se do abrandamento da descontinuidade.

Nesse cenário, entendo caber ao segurado demonstrar que o seu regresso visa à reaquisição de sua vocação agrícola, voltando a ter do meio rural sua principal fonte de subsistência. Assim sendo, descabe a aplicação da cláusula da descontinuidade em relação àquele que se afastou definitivamente do meio rural, mas que busca com seu regresso ao campo apenas obter a aposentadoria por idade prevista aos segurados especiais.

Valho-me, sobre essa questão, do trecho do voto vista do Juiz Federal José Antônio Savaris, no Incidente de Uniformização JEF nº 5002637-56.2012.404.7116/RS:

‘De acordo com as premissas acima estabelecidas, verifica-se que somente um longo período de afastamento de atividade, com sinais de saída definitiva do meio rural, poderia anular todo histórico de trabalho rural da recorrente. Apenas quando se identifica que não se trata de propriamente um regresso ao meio campesino, mas uma mudança do trabalhador, da cidade para o campo, estrategicamente provocada para fins de obtenção de benefício previdenciário, é que se torna inviável o manejo da cláusula de descontinuidade prevista no art. 143 da Lei de Benefícios.’

Dessa forma, havendo elementos concretos evidenciando que o retorno ao ambiente campesino se deu com o intuito de retomada da atividade rural como fonte de subsistência, e não apenas para se valer da condição de segurado especial às vésperas do protocolo do pedido de aposentadoria por idade, é que poderá ser admitida a descontinuidade nos termos acima propostos. É certo, porém, que não serão alguns meses, mas um período de tempo razoável entre o retorno e o requerimento capazes de resgatar sua origem/identidade campesina. Por óbvio, havendo no percurso temporal a perda da qualidade de segurado, deverá ser observada a exigência do parágrafo único, do artigo 24, da Lei 8.213/91.

De outra parte, inexistindo demonstração da efetiva retomada da ‘vocação’ rural, nada impede que o segurado venha a postular a aposentadoria com a utilização do tempo rural e/ou urbano. Porém, os requisitos a serem preenchidos serão diversos da aposentadoria por idade do segurado especial, seja pelo cumprimento das exigências da modalidade de aposentadoria prevista no caput do artigo 48 ou do § 3º desse mesmo dispositivo (híbrida), da Lei nº 8.213/91.

Essas modalidades de aposentadoria acima mencionadas podem até servir, em tese, de argumento contra a admissão de períodos intercalados de trabalho rural para a concessão de aposentadoria por idade do segurado especial. No entanto, a descontinuidade para o benefício em questão somente admite o cômputo de períodos de labor rural. Eventuais contribuição (na qualidade de empregado urbano ou contribuinte individual, por exemplo) que tenham ingressado nos cofres da previdência não integrarão o cálculo do salário-de-benefício, pois se trata de benefício correspondente ao valor de um salário-mínimo (artigo 39, inc. I, pelas regras permanentes, ou 143, segundo regra transitória, ambos dispositivos da Lei de Benefícios). Preservado, de certa forma, o equilíbrio atuarial.

Em suma, se por um lado a descontinuidade, nos termos propostos, favorece a concessão de benefício com o preenchimento dos requisitos da aposentadoria por idade do segurado especial, por outro agrava sua situação por não poder agregar, no cálculo de seu benefício, as contribuições efetivamente vertidas aos cofres da previdência no cálculo do benefício com o objetivo de aumentar a renda mensal inicial, pois sempre será no valor de um salário mínimo. Corre por sua conta e risco a opção.

O julgado a seguir transcrito, embora não corresponda à descontinuidade ora tratada, apresenta hipótese com efeitos semelhantes, vejamos:

PREVIDENCIÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL. APOSENTADORIA RURAL POR IDADE. COMPROVAÇÃO DO EXERCÍCIO DO LABOR RURAL PELO PERÍODO DE CARÊNCIA. IMPLEMENTO DO REQUISITO ETÁRIO. BENEFÍCIO DEVIDO. AGRAVO REGIMENTAL DO INSS DESPROVIDO.

(…)

Além disso, se a aposentadoria rural por idade seria concedida independentemente do pagamento de contribuições, com maior razão deve-se garantir também a concessão do benefício ao segurado que recolheu contribuições previdenciárias para a Seguridade Social como trabalhador urbano em pequenos períodos, sem, no entanto, cumprir a carência para a concessão da aposentadoria urbana, uma vez que essa situação não acarreta qualquer prejuízo ao equilíbrio atuarial do sistema previdenciário e, pelo contrário, até o favorece.

(…)

(AgRg no REsp 1309591/SP, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 05/06/2012, DJe 29/06/2012).

Do exposto, em revisão de entendimento, é possível admitir o cômputo de períodos de labor rural intercalados para fins de concessão de aposentadoria por idade rural, desde que demonstrada a condição de segurado especial no período imediatamente anterior ao requerimento administrativo ou implemento do requisito etário.

(…)’

Cumpre referir que a 3ª Seção desta Corte, no julgamento dos Embargos Infringentes nº 0017236-98.2014.4.04.9999/PR, em 03-12-2015, decidiu, por maioria, dar provimento aos embargos infringentes, para admitir o cômputo de períodos de labor rural intercalados para fins de concessão de aposentadoria por idade rural, desde que demonstrada a condição de segurado especial no período imediatamente anterior ao requerimento administrativo ou implemento do requisito etário.

O desempenho de atividade rural no período imediatamente anterior ao requerimento administrativo (de 2010 a 2012) demonstra que a parte autora inequivocamente retornou às lides rurícolas, readquirindo a sua qualidade de segurada especial, razão pela qual deve ser admitido o direito à contagem de períodos descontínuos anteriores (de 1985 a 1997 e de 1998 a 2000).

Portanto, somando-se os períodos em que a parte autora desempenhou atividades rurais, restou preenchida a carência necessária para a concessão do benefício.

Portanto, comprovado o implemento da idade mínima (sessenta anos para o homem e de cinqüenta e cinco anos para a mulher), e o exercício de atividade rural por tempo superior ao número de meses correspondentes à carência exigida, ainda que a comprovação seja feita de forma descontínua, é devido o benefício de aposentadoria rural por idade à parte autora.

Assim, preenchidos os requisitos da idade exigida (completou 55 anos em 23/07/2009) e comprovado o exercício da atividade rural em período correspondente ao da carência, no caso, 180 meses (quinze anos), deve ser reformada a sentença para condenar o INSS a conceder o benefício de Aposentadoria Rural por Idade em favor da parte autora a partir do requerimento administrativo, em 27/02/2012, a teor do disposto no art. 49, inciso II, da Lei n.º 8.213/91. 

Juros moratórios e correção monetária

A questão da atualização monetária das quantias a que é condenada a Fazenda Pública, dado o caráter acessório de que se reveste, não deve ser impeditiva da regular marcha do processo no caminho da conclusão da fase de conhecimento.

 Firmado em sentença, em apelação ou remessa oficial o cabimento dos juros e da correção monetária por eventual condenação imposta ao ente público e seus termos iniciais, a forma como serão apurados os percentuais correspondentes, sempre que se revelar fator impeditivo ao eventual trânsito em julgado da decisão condenatória, pode ser diferida para a fase de cumprimento, observando-se a norma legal e sua interpretação então em vigor. Isso porque é na fase de cumprimento do título judicial que deverá ser apresentado, e eventualmente questionado, o real valor a ser pago a título de condenação, em total observância à legislação de regência. 

O recente art. 491 do NCPC, ao prever, como regra geral, que os consectários já sejam definidos na fase de conhecimento, deve ter sua interpretação adequada às diversas situações concretas que reclamarão sua aplicação. Não por outra razão seu inciso I traz exceção à regra do caput, afastando a necessidade de predefinição quando não for possível determinar, de modo definitivo, o montante devido. A norma vem com o objetivo de favorecer a celeridade e a economia processuais, nunca para frear o processo. 

E no caso, o enfrentamento da questão pertinente ao índice de correção monetária, a partir da vigência da Lei 11.960/09, nos débitos da Fazenda Pública, embora de caráter acessório, tem criado graves óbices à razoável duração do processo, especialmente se considerado que pende de julgamento no STF a definição, em regime de repercussão geral, quanto à constitucionalidade da utilização do índice da poupança na fase que antecede a expedição do precatório (RE 870.947, Tema 810). 

Tratando-se de débito, cujos consectários são totalmente regulados por lei, inclusive quanto ao termo inicial de incidência, nada obsta a que sejam definidos na fase de cumprimento do julgado, em que, a propósito, poderão as partes, se assim desejarem, mais facilmente conciliar acerca do montante devido, de modo a finalizar definitivamente o processo. 

Sobre esta possibilidade, já existe julgado da Terceira Seção do STJ, em que assentado que ‘diante a declaração de inconstitucionalidade parcial do artigo 5.º da Lei n. 11.960/09 (ADI 4357/DF), cuja modulação dos efeitos ainda não foi concluída pelo Supremo Tribunal Federal, e por transbordar o objeto do mandado de segurança a fixação de parâmetros para o pagamento do valor constante da portaria de anistia, por não se tratar de ação de cobrança, as teses referentes aos juros de mora e à correção monetária devem ser diferidas para a fase de execução. 4. Embargos de declaração rejeitados’. (EDcl no MS 14.741/DF, Rel. Ministro JORGE MUSSI, TERCEIRA SEÇÃO, julgado em 08/10/2014, DJe 15/10/2014). 

Na mesma linha vêm decidindo as duas turmas de Direito Administrativo desta Corte (2ª Seção), à unanimidade, (Ad exemplum: os processos 5005406-14.2014.404.7101 3ª Turma, julgado em 01-06-2016 e 5052050-61.2013.404.7000, 4ª Turma, julgado em 25/05/2016). 

Portanto, em face da incerteza quanto ao índice de atualização monetária, e considerando que a discussão envolve apenas questão acessória no contexto da lide, à luz do que preconizam os art. 4º, 6º e 8º do novo Código de Processo Civil, mostra-se adequado e racional diferir-se para a fase de execução a decisão acerca dos critérios de correção, não prevalecendo os índices eventualmente fixados na fase de conhecimento, ocasião em que, provavelmente, a questão já terá sido dirimida pelo tribunal superior, o que conduzirá à observância, pelos julgadores, ao fim e ao cabo, da solução uniformizadora. 

Os juros de mora, incidentes desde a citação, como acessórios que são, também deverão ter sua incidência garantida na fase de cumprimento de sentença, observadas as disposições legais vigentes conforme os períodos pelos quais perdurar a mora da Fazenda Pública.

Evita-se, assim, que o presente feito fique paralisado, submetido a infindáveis recursos, sobrestamentos, juízos de retratação, e até ações rescisórias, com comprometimento da efetividade da prestação jurisdicional, apenas para solução de questão acessória.

Diante disso, difere-se para a fase de execução a forma de cálculo dos juros e correção monetária.

Da Verba Honorária

Os honorários advocatícios devem ser fixados em 10% sobre o valor da condenação, excluídas as parcelas vincendas, observando-se a Súmula 76 desta Corte: ‘Os honorários advocatícios, nas ações previdenciárias, devem incidir somente sobre as parcelas vencidas até a data da sentença de procedência ou do acórdão que reforme a sentença de improcedência’.

Das Custas Processuais

O INSS é isento do pagamento das custas no Foro Federal (art. 4.º, I, da Lei n.º 9.289/96) e na Justiça Estadual do Rio Grande do Sul, devendo, contudo, pagar eventuais despesas processuais, como as relacionadas a correio, publicação de editais e condução de oficiais de justiça (artigo 11 da Lei Estadual n.º 8.121/85, com a redação da Lei Estadual nº 13.471/2010, já considerada a inconstitucionalidade formal reconhecida na ADI n.º 70038755864 julgada pelo Órgão Especial do TJ/RS), isenções estas que não se aplicam quando demandado na Justiça Estadual do Paraná (Súmula 20 do TRF4), devendo ser ressalvado, ainda, que no Estado de Santa Catarina (art. 33, p. único, da Lei Complementar estadual 156/97), a autarquia responde pela metade do valor.

Tutela Específica

Considerando os termos do art. 497 do CPC/2015, que repete dispositivo constante do art. 461 do Código de Processo Civil/1973, e o fato de que, em princípio, a presente decisão não está sujeita a recurso com efeito suspensivo (Questão de Ordem na AC nº 2002.71.00.050349-7/RS – Rel. p/ acórdão Desemb. Federal Celso Kipper, julgado em 09/08/2007 – 3.ª Seção), o presente julgado deverá ser cumprido de imediato quanto à implantação do benefício postulado, no prazo de 45 dias.

Na hipótese de a parte autora já se encontrar em gozo de benefício previdenciário, deve o INSS implantar o benefício deferido judicialmente apenas se o valor de sua renda mensal atual for superior ao daquele.

Faculta-se à parte beneficiária manifestar eventual desinteresse quanto ao cumprimento desta determinação.

Ante o exposto, voto por dar provimento ao apelo da parte autora, determinar a implantação do benefício e diferir, de ofício, para a fase de execução a forma de cálculo dos juros e correção monetária. 

TRF4

Desembargador Federal JOÃO BATISTA PINTO SILVEIRA

Relator

EXEMPLO SIMPLES/RESUMIDO DE APOSENTADORIA RURAL POR IDADE?

          João, nascido em data de 10/01/1960, ainda criança, isto é, com 08 (oito) anos de idade acompanhava seus pais nas atividades rurais (lavoura em geral, carpa, roça, arrumar cercas, roçar pastos, etc…). Com 30 (trinta) anos de idade, João se casou, e continuou trabalhando na roça, quer seja num sítio em que sua esposa ou parentes possuí, quer seja em propriedades rurais da região (bóia-fria), e ainda, quer seja na mesma propriedade em que seus pais possuía.

          Fato é que, João, continuou trabalhando na lavoura. Porém, nesse exemplo, vamos levar em consideração que, João, nunca teve registro em carteira de trabalho, mas como foi salientado, desde os 08 (oito) anos de idade, João, acompanhava seus pais na lavoura, e ao se casar, continuou exercendo atividades rurais. Nesse sentido, mesmo João não tendo registro algum em carteira de trabalho e nem contribuição ao INSS (pagamento de carnê), pelo fato de João ter, a vida toda, trabalhado na lavoura (antes e depois de se casar), ao completar 60 (sessenta) anos, desde que devidamente comprovado (documentos/testemunhas), terá direito a ingressar com pedido de aposentadoria rural por Idade.

          Para tanto, comprovará seu labor rural, desde criança, principalmente, após seu matrimônio, mediante a documentação acima relatada (certidão de nascimento dos filhos onde conta lavrador, certidão de casamento onde consta lavrador, eventuais notas do produtor, documentos de propriedades rurais que João, seus pais, ou a esposa de João, bem como os pais da esposa de João, porventura, possuam, certidão do cartório eleitoral e do instituto de identificação contando a profissão de João como lavrador/trabalhador rural, testemunhas, etc…). 

          Perceba que no caso, reiterando/reforçando, a vida toda, João, foi rural (antes e depois do matrimônio), e tem documentos/testemunhas que comprovam essa situação (trabalhador rural). A regra, aliás, é comprovar os últimos 15 (quinze) anos, anteriores a completar a idade.

          Se fosse Joana (mulher), o exemplo seria idêntico, tão somente, reduzindo o requisito etário, para 55 (cinquenta e cinco) anos de idade. 

EXEMPLO SIMPLES/RESUMIDO DE APOSENTADORIA HIBRÍDA/MISTA:

          João, nascido em data de 10/01/1960, ainda criança, isto é, com 08 (oito) anos de idade, acompanhava seus pais nas atividades rurais (lavoura em geral, carpa, roça, arrumar cercas, roçar pastos, etc…). Com 30 (trinta) anos de idade, João se casou (se ele nasceu no ano de 1960, conforme acima constei, significa que ele casou-se no ano de 1990, pois como relatei, no presente exemplo, ele tinha 30 anos de idade, quando se casou), e foi para cidade exercer atividades urbanas (comerciante, vendedor, balconista, etc…).

          Porém, nesse exemplo, vamos levar em consideração que, João, até se casar nunca teve registro em carteira, enfim, durante todo período rural, João, trabalhava informalmente, sem qualquer vínculo em carteira de trabalho, e ao iniciar trabalho urbano, João, passou a ter registro em carteira de trabalho. Nesse sentido, poderíamos pegar o período em que, João, trabalhou na lavoura, acompanhando seus pais, isso a partir dos 12 (doze) anos de idade (se ele nasceu no ano de 1960, poderíamos computar do ano de 1972, quando completou 12 anos de idade), porque, embora ele tenha começado com 08 (oito) anos de idade, a lei é clara/expressa, e só autoriza contar a partir dos 12 (doze) anos de idade, mais o período em que, João, tenha em carteira de trabalho. Inclusive todo período rural, anterior ao ano de 1991, nem precisa de contribuição, ao passo que depois do ano de 1991, necessita ser contribuído/ter registro em carteira de trabalho.

         Somados os dois (rural e carteira de trabalho), chegando/ultrapassando 15 (quinze) anos, João, poderia ingressar com pedido de aposentadoria híbrida/mista. Para tanto, João, necessita ter 65 (sessenta e cinco) anos de idade. Em suma: João, pode somar todo período rural (a partir dos 12 anos de idade), mesmo sem registro em carteira e sem contribuição, anterior ao ano de 1991, e somar ainda o período em carteira de trabalho (rural + carteira de trabalho + testemunhas + 65 anos de idade), totalizando no mínimo 15 (quinze) anos, pode pleitear sua aposentadoria híbrida/mista.

          Se fosse Joana (mulher), o exemplo seria idêntico, tão somente, reduzindo o requisito etário, para 62 (sessenta e dois) anos de idade.

EXEMPLO SIMPLES/RESUMIDO DE APOSENTADORIA POR TEMPO DE CONTRIBUIÇÃO:

          João, nascido em data de 10/01/1960, ainda criança, isto é, com 08 (oito) anos de idade, acompanhava seus pais nas atividades rurais (lavoura em geral, carpa, roça, arrumar cercas, roçar pastos, etc…). Com 30 (trinta) anos de idade, João se casou (se ele nasceu no ano de 1960, conforme acima constei, significa que ele casou-se no ano de 1992, pois como relatei, no presente exemplo, ele tinha 32 anos de idade, quando se casou), e foi para cidade exercer atividades urbanas (comerciante, vendedor, balconista, etc…).

          Porém, nesse exemplo, vamos levar em consideração que, João, até se casar nunca teve registro em carteira, enfim, durante todo período rural, João, trabalhava informalmente, sem qualquer vínculo em carteira de trabalho, e ao iniciar trabalho urbano, João, passou a ter registro em carteira de trabalho.

          Nesse sentido, poderíamos pegar o período em que, João, trabalhou na lavoura, acompanhando seus pais, isso a partir dos 12 (doze) anos de idade (se ele nasceu no ano de 1960, poderíamos computar do ano de 1972, quando completou 12 anos de idade, até o ano de 1991, quando a lei passou a proibir o cômputo desse período rural, sem contribuição – com isso já aproveitaria 19 anos de trabalho rural, isto é, 1972 a 1991), porque, embora ele tenha começado com 08 (oito) anos de idade, a lei é clara/expressa, e só autoriza contar a partir dos 12 (doze) anos de idade, mais/somando o período em que, João, tenha em carteira de trabalho.

          Assim, somados os dois (rural e carteira de trabalho), chegando/ultrapassando 35 (trinta e cinco) anos, João, poderia ingressar com pedido de aposentadoria por tempo de contribuição. Nesse caso independe de idade, digo, não importa a idade que João tenha. Em suma: João, pode somar todo período rural (a partir dos 12 anos de idade), mesmo sem registro em carteira e sem contribuição, anterior ao ano de 1991, e somar ainda o período em carteira de trabalho (rural + carteira de trabalho + testemunhas), totalizando no mínimo 35 (trinta e cinco) anos, pode pleitear sua aposentadoria por tempo de contribuição. 

          Isso tudo, devemos considerar como direito adquirido, ou seja, antes da reforma previdenciária, ocorrida em data de 12/11/2019, visto que, após essa data, a aposentadoria por tempo de contribuição não mais existe.

          Se fosse Joana (mulher), o exemplo seria idêntico, tão somente, reduzindo o tempo de trabalho para 30 (trinta) anos. 

CONCLUSÃO:

          Observe, amigo leitor, que o período rural trabalhado serve para três tipos de aposentadorias, ou seja, por tempo de contribuição, rural por idade e/ou híbrida/mista. Importante frisar também que, se comprovar a condição de segurado especial (ser trabalhador rural/lavrador, com toda documentação rural pertinente e testemunhas), também é possível conseguir auxílio-doença e/ou aposentadoria por invalidez.

Veja: NOÇÕES GERAIS SOBRE AUXÍLIO-DOENÇA

           Ademais, o período rural em que você trabalhou, anterior ao ano de 1991, não precisa constar em carteira de trabalho, isto é, não há necessidade de contribuição, devendo apenas ser comprovado pelos documentos acima referidos. Já o período, posterior ao ano de 1991, deve ter registro em carteira ou contribuição (pagamento de carnês ao INSS).

          Outro detalhe importante é que você, caro leitor, pode aproveitar o período rural do início da vida, a partir dos 12 (doze) anos de idade, ou mesmo, àquela atividade rural que desenvolveu, após o ano de 1991 (neste caso deve ser registrado em CTPS ou pagamento de contribuição). Todo período rural, em outras palavras, será “bem-vindo”.

          Destaca ainda que os documentos rurais são àqueles relacionados nesse texto, dentre outros que possuir que comprove a atividade agrícola, sendo, em regra, fácil de conseguir, pois se trata, em grande parte, de documentos pessoais onde o interessado já tem consigo, ou está em posse de algum parente. Resumindo: documentos do dia-a-dia. 

          Não se esqueça, amigo leitor, que as testemunhas não podem ser parentes (pais, avôs, irmãos, tios, etc…), devendo ainda conhecer bem seu trabalho rural para “falarem em juízo”.

             Pensamos ter lhe ajudado a entender um pouco mais sobre o assunto.

          O tema, porém, é complexo e, caso queira mais informações; ou queira fazer algum comentário; ou, ainda, caso tenha restado alguma dúvida, poste-os abaixo. Terei o maior prazer em ajudar.

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