APOSENTADORIA ESPECIAL DO PINTOR AUTOMOTIVO


É possível se aposentar com um benefício mais vantajoso, enfim sem descontos, trabalhando menos tempo?
RESUMO:

O trabalho na condição de pintor automotivo/industrial (uso de pistola ou similar), já pressupõem o contato com agentes nocivos à saúde, também conhecido como insalubres. Ademais, a exposição contínua à graxa, solventes, hidrocarbonetos, dentre outros, desde que devidamente comprovado, possibilitam o reconhecimento do período laborado como especial. Infelizmente, o INSS tem por praxe negar a aposentadoria especial para esses trabalhadores na via administrativa, restando ao segurado a possibilidade de ajuizar ação para concessão do benefício.

          O EPI, em tese, não impede que o trabalhador tenha direito de obter o benefício. Aliás, mesmo que o INSS alegue este fato, no judiciário, via de regra, é afastado este argumento.

O QUE É APOSENTADORIA ESPECIAL?

          Em apertada síntese, refere-se a um benefício previdenciário concedido ao trabalhador que exerce suas atividades exposto a agentes nocivos, que podem causar algum prejuízo à sua saúde e integridade física ao longo do tempo ou o expõem ao perigo ou à penosidade. O benefício não sofre incidência do Fator Previdenciário.

O QUE É FATOR PREVIDENCIÁRIO?

          É um número (zero vírgula alguma coisa na maior parte das vezes) que resulta de uma fórmula complicada imposta pela Lei 9876/99. A fórmula usada para chegar ao fator previdenciário leva em conta o tempo de contribuição, até o momento da aposentadoria, a idade do trabalhador na hora da aposentadoria e a expectativa de anos que o trabalhador ainda teria de vida. Veja a fórmula:

          Com a imposição do fator previdenciário o Governo Fernando Henrique Cardoso pretendeu “forçar” as pessoas a trabalharem por mais tempo (+ contribuição e -tempo de vida para aproveitar o benefício).

          Pela Lei de benefícios, o valor de sua aposentadoria por tempo de contribuição é calculado com base na seguinte fórmula:  média do que você contribuiu” x “fator previdenciário”. Assim, se o fator for pequeno, a aposentadoria será reduzida.

          Caso o segurado pare de trabalhar com pouca idade e pagando apenas o mínimo para se aposentar, o benefício previdenciário será menor. Veja um exemplo para facilitar:

O fator previdenciário de um homem de 55 anos, com 35 anos de contribuição, é de 0,682. Se a média salarial desse homem é R$ 3.000, a aposentadoria vai ser R$ 2.046 (0,682 X 3.000 = 2.046).

          Por isso, é importantíssimo salientar que no caso da Aposentadoria Especial, não incide o fator previdenciário, ou seja, não haverá qualquer desconto.

QUAL A IDADE MÍNIMA PARA APOSENTADORIA ESPECIAL?

          Não há idade mínima para essa espécie de aposentadoria. Pode se aposentar com qualquer idade, desde que comprovada a exposição aos agentes insalubres/periculosos/nocivos à saúde.

QUAL A CARÊNCIA?

          A carência é o tempo mínimo exigido de contribuições para que o INSS conceda determinado benefício. Por isso, cada benefício do INSS apresenta um período específico de carência exigida, sendo que no caso da Aposentadoria Especial, são necessários 180 meses de contribuição (15 anos).

TEMPO DE CONTRIBUIÇÃO EM ATIVIDADE ESPECIAL?

           O trabalhador precisa também exercer sua atividade com exposição aos agentes nocivos por um determinado período de tempo. O tempo de contribuição necessário pode ser de 15 anos, 20 anos ou 25 anos a depender do agente nocivo a que o trabalhador foi exposto. Exemplo clássico no Direito Previdenciário é o do mineiro (trabalhador de minas), que se aposenta com este benefício excepcional após 15 anos de atividade.

         O segurado que exercer mais de uma atividade especial durante seu período contributivo, mas sem completar o período mínimo (15, 20 ou 25 anos), poderá converter o período total de cada atividade e, ao final, somar todos os períodos para concessão do benefício. Entretanto, fica registrado que no caso da Aposentadoria Especial ao pintor o tempo de contribuição exigido é de 25 anos.

COMO PROVAR O TRABALHO INSALUBRE,PERIGOSO OU PENOSO?

          A lei de benefícios, bem como seu regulamento estabelecem que a prova do trabalho especial se faz por meio da apresentação de um formulário, o chamado PPP (Perfil Profissiográfico Previdenciário), que deve ser entregue ao funcionário pela empresa e que esse formulário será preenchido com base em um laudo técnico feito por um médico ou engenheiro do trabalho contratado pela empresa. É isso o que se exige do segurado quando vai pleitear reconhecimento de atividade especial junto ao INSS atualmente: PPP e Laudo Técnico. Evidente que isso não poderia dar certo.

        O INSS não fiscaliza as empresas, então, muitas vezes, elas não contratam Médico ou Engenheiro para lhes fiscalizar e emitir laudo. Esses profissionais são muito caros por sua especialidade e várias vezes as empresas negligenciam em sua obrigação. Ora, se não tem laudo, como poderiam preencher o PPP, se este apenas copia o que consta no laudo? Em suma, a empresa não fornece o PPP aos funcionários. O que fazer?

Nesse ponto indico um texto do colega que ira ajudar o amigo leitor.

Veja: A EMPRESA NÃO QUER FORNECER O PPP E O LTCAT, O QUE DEVO FAZER?

HÁ DECISÕES EM CASOS REAIS?

Há sim, senhor leitor. Veja uma decisão do tribunal, explicando tudo sobre a Aposentadoria Especial do Cozinheiro, por exemplo:

EMENTA: DIREITO PREVIDENCIÁRIO. CATEGORIA PROFISSIONAL. PINTOR. AGENTES NOCIVOS. RUÍDO. HIDROCARBONETOS. RECONHECIMENTO. CONVERSÃO DE TEMPO COMUM EM ESPECIAL. IMPOSSIBILIDADE. RESP N. 1.310.034-PR. REAFIRMAÇÃO DA DER. SITUAÇÃO EXCEPCIONAL. ARTIGO 462 DO CPC. POSSIBILIDADE. APOSENTADORIA POR TEMPO DE SERVIÇO/CONTRIBUIÇÃO. CONCESSÃO. CABIMENTO. CONSECTÁRIOS DA CONDENAÇÃO.  JUROS DE MORA. ADEQUAÇÃO. (…)

VOTO

A controvérsia restringe-se ao reconhecimento de períodos de trabalho prestados em condições especiais; bem como a possibilidade de proceder à conversão inversa dos períodos de trabalho comum exercidos até 28/04/1995, com a consequente concessão do benefício previdenciário de aposentadoria especial.

Tempo Especial

No caso em apreço, os períodos controversos de atividade laboral, exercidos em condições especiais, estão assim detalhados:

Períodos: 02/07/1983 a 06/02/1987 e 01/04/1987 a 02/04/1991
Empresa: Paulo Lopes de Oliveira
Função/Atividades: Servente (no setor de conservação executava serviços de recolhimento de latões de lixo nos diversos pontos da empresa e distribuição de materiais gerais nas lojas); ajudante de caminhão.
Agentes nocivos: Enquadramento por atividade (ajudante de caminhão) e Agentes Biológicos
Enquadramento legal: Códigos 1.3.1 do Quadro Anexo do Decreto 53.831/64,  1.3.2 do Anexo I do Decreto 83.080/79 e 2.4.4 do Anexo ao Decreto 53.831/64.
Provas: Formulário DSS8030 (evento 1, PROCADM5, fl. 06)

Conclusão: Restou devidamente comprovado nos autos o exercício de atividade especial pela parte autora nos períodos indicados, conforme a legislação aplicável à espécie, em virtude de sua exposição ao agente nocivo referido.

Período: 15/04/1991 a 31/01/1994
Empresa: VEM S/A (Varig Engenharia e Manutenção)
Função/Atividades: Vulcanizador (no setor de manutenção realizava a preparação de tintas para pintura de peças, componentes, casco-célula, e estruturas da aeronave utilizando thinner, methilethil-cetona, primer epoxi, poliuretano, catalisador, tinta nitro-celulose, verniz epoxi, tinta vinílica e sintética)
Agentes nocivos: Hidrocarbonetos e Ruído de 85 decibéis
Enquadramento legal: Códigos 1.2.11 do Quadro Anexo do Decreto 53.831/64 e 1.2.10 do Anexo I do Decreto 83.080/79 (hidrocarbonetos); 1.1.6 do Quadro Anexo do Decreto 53.831/64 (ruído)
Provas: Formulário DSS8030 (evento 1, PROCADM5, fl. 07), PPP (OUT8, fl. 06) e Laudo Pericial Judicial (evento 40)

Conclusão: Restou devidamente comprovado nos autos o exercício de atividade especial pela parte autora no período indicado, conforme a legislação aplicável à espécie, em virtude de sua exposição ao agente nocivo referido.

Período: 01/02/1994 a 28/04/1995
Empresa: TAP Manutenção Engenharia Brasil S/A
Função/Atividades: Auxiliar de Serviços Técnicos e Pintor de Aeronaves (no setor de manutenção realizava a preparação de tintas para pintura de peças, componentes, casco-célula, e estruturas da aeronave utilizando thinner, methilethil-cetona, primer epoxi, poliuretano, catalisador, tinta nitro-celulose, verniz epoxi, tinta vinílica e sintética)
Categoria Profissional: Pintor
Agentes nocivos: Hidrocarbonetos e Ruído de 85 decibéis
Enquadramento Ficto: Código 2.5.4 do Decreto 53.831/64 (pintor)
Enquadramento legal: Códigos 1.2.11 do Quadro Anexo do Decreto 53.831/64 e 1.2.10 do Anexo I do Decreto 83.080/79 (hidrocarbonetos); 1.1.6 do Quadro Anexo do Decreto 53.831/64 (ruído)
Provas: Formulário DSS8030 (evento 1, PROCADM5, fl. 07), PPP (OUT8, fl. 06) e Laudo Pericial Judicial (evento 40)

Conclusão: Restou devidamente comprovado nos autos o exercício de atividade especial pela parte autora no período indicado, conforme a legislação aplicável à espécie, em virtude de seu enquadramento por categoria profissional.

Período: 29/04/1995 a 24/03/2008
Empresa: TAP Manutenção Engenharia Brasil S/A
Função/Atividades: Pintor de Manutenção de Aeronaves (no setor oficina de pintura executa serviços de pintura de aeronaves, seus componentes, veículos e equipamentos)
Agentes nocivos: Hidrocarbonetos e Ruído de 87,7 decibéis
Enquadramento legal: Códigos 1.2.11 do Quadro Anexo do Decreto 53.831/64 e 1.2.10 do Anexo I do Decreto 83.080/79 (hidrocarbonetos); 1.1.6 do Quadro Anexo do Decreto 53.831/64, 1.1.5 do Anexo I do Decreto 83.080/79, 2.0.1 do Anexo IV do Decreto 2.172/97 e 2.0.1 do Anexo IV do Decreto 3.048/1999, com a alteração introduzida pelo Decreto 4.882/2003 (ruído)
Provas: Formulário DSS8030 (evento 1, PROCADM5, fl. 07), PPP (OUT8, fl. 06) e Laudo Pericial Judicial (evento 40)

Observo que o Laudo Pericial Judicial trazido a exame refere (evento 40, LAU1, fl. 03) que a partir de 22/01/2002 o autor foi afastado das atividades de pintura, por orientação médica, passando a realizar atividades administrativas e de programação junto à oficina de pintura. Disto conclui-se que a partir desta data o autor deixou de ter contato direto com hidrocarbonetos, mas continuou submetido ao agente físico ruído, uma vez que suas atividades continuaram sendo executadas no mesmo setor.

Quanto ao agente nocivo ruído, no setor oficina de pintura, o PPP informa submissão a 85 decibéis ao passo que o laudo pericial judicial refere 87,7 decibéis. Como o laudo foi produzido no ambiente de trabalho da parte autora e constatou a existência de ruído no patamar de 87,7 decibéis em data posterior ao labor, razão não há para se deduzir que as agressões ao trabalhador eram menores ou inexistiam na época da prestação do serviço, até porque a evolução tecnológica e da segurança do trabalho tende a causar a redução, e não o aumento dessa nocividade com o passar dos anos. Assim, privilegio o prova técnica, produzida em juízo, em detrimento do formulário apresentado.

Desse modo, é possível afirmar que o autor esteve exposto aos hidrocarbonetos no período de 29/04/1995 a 21/01/2002 e ao agente ruído nos interregnos de 29/04/1995 a 06/03/1997 e de 18/11/2003 a 24/03/2008, uma vez que entre 06/03/1997 e 18/11/2003, os decretos regulamentadores da matéria estabeleciam a necessidade de submissão a patamares superiores a 90 decibéis.

Assim, resta afastada a especialidade das atividades exercidas entre 22/01/2002 e 18/11/2003, devendo ser provido o recurso do INSS e a remessa oficial, no ponto.

Conclusão: Restou devidamente comprovado nos autos o exercício de atividade especial pela parte autora nos períodos de 29/04/1995 a 21/01/2002 e de 19/11/2003 a 24/03/2008, conforme a legislação aplicável à espécie, em virtude de sua exposição aos agentes nocivos referidos.

Importa destacar que, revisando a jurisprudência desta Corte, providência do colegiado para a segurança jurídica da final decisão esperada, passa-se a adotar o entendimento pacífico do egrégio Superior Tribunal de Justiça, no sentido que devem limitar o reconhecimento da atividade especial os estritos parâmetros legais vigentes em cada época (RESP 1333511 – CASTRO MEIRA, e RESP 1381498 – MAURO CAMPBELL), de modo que é tida por especial a atividade exercida com exposição a ruídos superiores a 80 decibéis até a edição do Decreto 2.172/1997. Após essa data, o nível de ruído considerado prejudicial é o superior a 90 decibéis. Com a entrada em vigor do Decreto 4.882, em 18.11.2003, o limite de tolerância ao agente físico ruído foi reduzido para 85 decibéis (AgRg no REsp 1367806, Relator Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, vu 28/05/2013), desde que aferidos esses níveis de pressão sonora por meio de perícia técnica, trazida aos autos ou noticiada no preenchimento de formulário expedido pelo empregador.

Em relação à exposição a agentes químicos, especialmente hidrocarbonetos, passo a adotar o entendimento já consolidado neste Tribunal de que os riscos ocupacionais gerados por esses agentes não requerem a análise quantitativa de sua concentração ou intensidade máxima e mínima no ambiente de trabalho, dado que são caracterizados pela avaliação qualitativa.

Ressalte-se, ainda, que é perfeitamente possível o reconhecimento da especialidade da atividade, mesmo que não se saiba a quantidade exata de tempo de exposição ao agente insalubre. Necessário, apenas, restar demonstrado que o segurado estava sujeito, diuturnamente, a condições prejudiciais à sua saúde. A propósito, a jurisprudência desta Corte, ipsis litteris:

PREVIDENCIÁRIO. APOSENTADORIA POR TEMPO DE SERVIÇO. ATIVIDADE RURAL EM REGIME DE ECONOMIA FAMILIAR. INÍCIO DE PROVA MATERIAL. TEMPO DE SERVIÇO ESPECIAL. HABITUALIDADE E PERMANÊNCIA. INTERMITÊNCIA. (…) 3. Os requisitos da habitualidade e da permanência devem ser entendidos como não-eventualidade e efetividade da função insalutífera, continuidade e não-interrupção da exposição ao agente nocivo. A intermitência refere-se ao exercício da atividade em local insalubre de modo descontínuo, ou seja, somente em determinadas ocasiões. 4. Se o trabalhador desempenha diuturnamente suas funções em locais insalubres, mesmo que apenas em metade de sua jornada de trabalho, tem direito ao cômputo do tempo de serviço especial, porque estava exposto ao agente agressivo de modo constante, efetivo, habitual e permanente.
(AC nº 2000.04.01.073799-6/PR,TRF-4ª Região, 6ª Turma, Rel. Des. Federal Luiz Carlos de Castro Lugon , DJU 9-5-2001).

Por outro lado, vale referir que a utilização de equipamentos de proteção individual (EPI) é irrelevante para o reconhecimento das condições especiais, prejudiciais à saúde ou à integridade física do trabalhador, da atividade exercida no período anterior a  03 de dezembro de 1998, data da publicação da MP nº 1.729, de 2 de dezembro de 1998, convertida na Lei nº 9.732, de 11 de dezembro de 1998, que alterou o § 2º do artigo 58 da Lei 8.213/91, determinando que o laudo técnico contenha informação sobre a existência de tecnologia de proteção individual que diminua a intensidade do agente agressivo a limites de tolerância e recomendação sobre a sua adoção pelo estabelecimento respectivo.

A própria Autarquia já adotou esse entendimento na Instrução Normativa 45/2010:

 Art. 238…
§ 6º Somente será considerada a adoção de Equipamento de Proteção Individual – EPI em demonstrações ambientais emitidas a partir de 3 de dezembro de 1998, data da publicação da MP nº 1.729, de 2 de dezembro de 1998, convertida na Lei nº 9.732, de 11 de dezembro de 1998, e desde que comprovadamente elimine ou neutralize a nocividade e seja respeitado o disposto na NR-06 do MTE, havendo ainda necessidade de que seja assegurada e devidamente registrada pela empresa, no PPP, a observância:

No caso dos autos, conquanto os documentos façam referência ao uso de EPI, não restou comprovado o efetivo fornecimento, pelas empresas, do equipamento de proteção individual durante a integralidade dos contratos de trabalho e tampouco ficou demonstrado o uso permanente pelo empregado durante toda a jornada laboral. Desse modo, tenho que o emprego desses acessórios não é suficiente para descaracterizar a especialidade do tempo de serviço em exame.

Em todo caso, tratando-se de ruído, nem mesmo a comprovação de redução aos limites legais de tolerância pelo uso de EPI é capaz de eliminar a nocividade à saúde, persistindo a condição especial do labor já que a proteção não neutraliza as vibrações transmitidas para o esqueleto craniano e, através dele, para o ouvido interno. (Irineu Antônio Pedrotti, Doenças Profissionais ou do Trabalho, LEUD, 2ª ed., São Paulo, 1998, p. 538).

Assim, a sentença monocrática deve ser mantida, no que reconheceu a especialidade das atividades exercidas nos períodos de 02/07/1983 a 06/02/1987, 01/04/1987 a 02/04/1991, 15/04/1991 a 21/01/2002 e de 19/11/2003 a 24/03/2008.

Conversão inversa

No tocante à possibilidade de conversão de tempo comum para especial (multiplicador 0,71 no caso de homem e 0,83 no caso de mulher) para os períodos laborados antes da Lei nº 9.032/95, assim decidiu o Superior Tribunal de Justiça ao julgar os Embargos de Declaração no Recurso Especial Repetitivo 1.310.034-PR, em 26/11/2014, publicado no DJe em 02/02/2015, em que Relator o Ministro Herman Benjamin, in verbis:

 
PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ERRO MATERIAL NA RESOLUÇÃO DO CASO CONCRETO. ACOLHIMENTO. RESOLUÇÃO DA CONTROVÉRSIA SOB O RITO DO ART. 543-C DO CPC E DA RESOLUÇÃO STJ 8/2008 MANTIDA. PREVIDENCIÁRIO. TEMPO ESPECIAL E COMUM. POSSIBILIDADE DE CONVERSÃO. LEI APLICÁVEL. CRITÉRIO. LEGISLAÇÃO VIGENTE QUANDO PREENCHIDOS OS REQUISITOS DA APOSENTADORIA.
1. A parte embargante aduz que o item “4” da ementa apresenta erro material, já que em 24.1.2002, data do requerimento administrativo de concessão da aposentadoria, não estaria vigente a redação original do art. 57, § 3º, da Lei 8.213/1991, e sim a redação dada ao citado dispositivo legal pela Lei 9.032/1995 (art. 57, § 5º). Com isso e aplicando a tese fixada sob o rito do art. 543-C do CPC ao presente caso, assevera que não é possível a conversão de tempo comum em especial em favor do embargado.
Resolução da controvérsia submetida ao rito do art. 543-C do CPC
2. Não sendo objeto de irresignação a tese fixada sob o regime do art. 543-C do CPC no acórdão embargado, mas sim a sua aplicação sobre o caso concreto, permanece incólume a resolução da controvérsia sob o regime dos recursos repetitivos assentada no acórdão embargado:
2.1. Como pressupostos para a solução da matéria de fundo, destaca-se que o STJ sedimentou o entendimento de que, em regra; a) a configuração do tempo especial é de acordo com a lei vigente no momento do labor, e b) a lei em vigor quando preenchidas as exigências da aposentadoria é a que define o fator de conversão entre as espécies de tempo de serviço. Nesse sentido: REsp 1.151.363/MG, Rel. Ministro Jorge Mussi, Terceira Seção, DJe 5.4.2011, julgado sob o rito do art. 543-C do CPC.
2.2. A lei vigente por ocasião da aposentadoria é a aplicável ao direito à conversão entre tempos de serviço especial e comum, independentemente do regime jurídico à época da prestação do serviço. Na mesma linha: REsp 1.151.652/MG, Rel. Ministra Laurita Vaz, Quinta Turma, DJe 9.11.2009; REsp 270.551/SP, Rel. Ministro Gilson Dipp, Quinta Turma, DJ 18.03.2002; Resp 28.876/SP, Rel. Ministro Assis Toledo, Quinta Turma, DJ 11.09.1995; AgRg nos EDcl no Ag 1.354.799/PR, Rel. Ministra Maria Thereza de Assis Moura, Sexta Turma, DJe 5.10.2011.
Exame dos presentes Embargos de Declaração – caso concreto
1. Com efeito, tem razão a autarquia previdenciária quanto ao erro de premissa do item “4” da ementa, pois em 2002, data da reunião dos requisitos da aposentadoria, não vigorava a redação original do art. 57, § 3º, da Lei n. 8.213/1991,mas sim o art. 57, § 5º, da Lei 8.213/1991 com a redação dada pela Lei 9.032/1995 (houve renumeração dos parágrafos).
2. Conforme decidido no acórdão embargado, esta Primeira Seção, sob o regime do art. 543-C do CPC, estabeleceu que é a lei do momento da aposentadoria que rege o direito à conversão de tempo comum em especial e de especial em comum, o que, com o erro material acima sanado, demanda a revisão da resolução do caso concreto.
7. A lei vigente no momento da aposentadoria, quanto ao direito à conversão do tempo de serviço de comum em especial, era o art. 57, § 5º, da Lei 8.213/1991, com a redação dada pela Lei 9.032/1995, que suprimiu a possibilidade de conversão de tempo comum em especial, mantendo apenas a hipótese de conversão de tempo especial em comum (“§ 5º O tempo de trabalho exercido sob condições especiais que sejam ou venham a ser consideradas prejudiciais à saúde ou à integridade física será somado, após a respectiva
conversão ao tempo de trabalho exercido em atividade comum, segundo critérios estabelecidos pelo Ministério da Previdência e Assistência Social, para efeito de concessão de qualquer benefício.”).
9. No caso dos autos, a reunião dos requisitos para a aposentadoria foi em 2002, quando em vigor, portanto, o art. 57, § 5º, da Lei 8.213/1991, com a redação dada pela Lei 9.032/1995, que afastou a previsão de conversão de tempo comum em especial.
10. Não se deve confundir tal situação, todavia, com as premissas adotadas no item “2” da ementa do acórdão embargado (2.1 acima), como segue:
10.1. “a configuração do tempo especial é de acordo com a lei vigente no momento do labor”: essa regra consiste na definição da lei que rege a configuração do tempo de serviço. Por exemplo, se o trabalho foi exercido de 1990 a 1995, a lei vigente no momento da prestação do serviço é que vai dizer se a atividade é especial ou comum.
10.2. “a lei em vigor quando preenchidas as exigências da aposentadoria é a que define o fator de conversão entre as espécies de tempo de serviço”: para saber qual o fator de conversão do tempo de serviço de especial para comum, e vice-versa, a lei que rege o direito é a do momento da aposentadoria. Exemplo: se em 2003 o tempo de serviço para aposentadoria especial era de 25 anos e o tempo de serviço para aposentadoria por tempo de contribuição era de 35 anos (para homens), o fator de conversão do tempo de serviço especial em comum será de 1,4 (resultado da divisão 35/25), sendo irrelevante se, ao tempo da prestação do lapso laboral que se pretende converter, havia norma que estipulava outra proporção.
11. No presente recurso representativo da controvérsia, repita-se, o objeto da controvérsia é saber qual lei rege a possibilidade de converter tempo comum em especial, e o que ficou estipulado (item “3” da ementa) no acórdão embargado é que a lei vigente no momento da aposentadoria disciplina o direito vindicado.
12. No caso concreto, o objetivo era que a conversão do tempo de serviço fosse regida pela Lei vigente ao tempo da prestação (Lei 6.887/1980), o que foi afastado pelo postulado decidido sob o regime do art. 543-C do CPC de que “a lei vigente por ocasião da aposentadoria é a aplicável ao direito à conversão entre tempos de serviço especial e comum, independentemente do regime jurídico à época da prestação do serviço”.
13. Ao embargado foi deferida administrativamente a aposentadoria por tempo de contribuição em 24.1.2002, pois preencheu o tempo de 35 anos de serviço, mas pretende converter o tempo comum que exerceu em especial, de forma a converter o citado benefício em aposentadoria especial.
14. A vantagem desse procedimento é que a aposentadoria especial não está submetida ao fator previdenciário (art. 29, I e II, da Lei 8.213/1991, com a redação da Lei 9.876/1999), o que de certa forma justifica a vedação legal de conversão do tempo comum em especial, pois, caso contrário, todos os aposentados por tempo de contribuição com 35 anos de tempo de serviço comum, por exemplo, poderiam pleitear a conversão desse tempo em especial (fator 1,4) de forma a também converter a aposentadoria comum em especial (25 anos) e, com isso, afastar o fator previdenciário.
15. Tal argumento de reforço, com intuito de apresentar visão sistêmica do regime geral de previdência social, denota justificativa atuarial para a vedação de conversão do tempo comum em especial fixada pela Lei 9.032/1995.
16. O sistema previdenciário vigente após a Lei 9.032/1995, portanto, somente admite aposentadoria especial para quem exerceu todo o tempo de serviço previsto no art. 57 da Lei 8.213/1991 (15, 20 ou 25 anos, conforme o caso) em condições especiais que prejudiquem a saúde ou a integridade física.
17. Embargos de Declaração acolhidos, com efeito infringente, para prover o Recurso Especial e julgar improcedente a presente ação, invertendo-se os ônus sucumbenciais, mantendo-se incólume a resolução da controvérsia sob o rito do art. 543-C do CPC.

 Portanto, conforme decidido pelo Superior Tribunal de Justiça, a lei vigente por ocasião da aposentadoria é a aplicável ao direito à conversão entre tempos de serviço especial e comum, independentemente do regime jurídico à época da prestação do serviço, caso em que inviável, na hipótese dos autos, a conversão de tempo comum em especial, tendo em vista que os requisitos foram preenchidos quando em vigor o art. 57, § 5º, da Lei 8.213/1991, com a redação dada pela Lei 9.032/1995, que afastou essa possibilidade.

Neste contexto, deve ser provido o recurso do INSS e a remessa oficial, no ponto, para o fim de afastar a possibilidade de conversão, pelo fator 0.71, do tempo de trabalho comum para tempo especial deferido na sentença.

Aposentadoria especial

A aposentadoria especial, prevista no artigo 57 da Lei n.º 8.213/91, é devida ao segurado que, além da carência, tiver trabalhado sujeito a condições especiais que prejudiquem a saúde ou a integridade física durante 15, 20 ou 25 anos.

Em se tratando de aposentadoria especial, portanto, não há conversão de tempo de serviço especial em comum, visto que o que enseja a outorga do benefício é o labor, durante todo o período mínimo exigido na norma em comento (15, 20, ou 25 anos), sob condições nocivas.

No presente caso, somando-se os períodos de labor especial reconhecidos nesta ação chega-se ao total de 22 anos, 08 meses e 20 dias, insuficientes à concessão da aposentadoria especial.

Passo ao exame da possibilidade de concessão do benefício de aposentadoria por tempo de serviço/contribuição.

Aposentadoria por Tempo de Serviço/Contribuição

No caso em exame, considerado o presente provimento judicial, tem-se a seguinte composição do tempo de serviço da parte autora:

(…)

Conforme verificado acima, o tempo de serviço reconhecido na sentença somado ao computado pelo INSS até a DER alcança 34 anos 08 meses e 15 dias. Em tese este tempo poderia conferir ao autor direito à aposentadoria por tempo de contribuição proporcional, todavia, ele não conta com a idade mínima necessária. Ainda que assim não fosse, o benefício, na forma proporcional, implicaria a aplicação do pedágio e a redução do coeficiente de cálculo para 5% ao ano, situação que não se mostra razoável, já que apenas 45 dias após a DER o autor completou 35 anos de tempo de contribuição, uma vez que permaneceu trabalhando.

Em consulta ao CNIS, como determina o artigo 29-A da Lei 8.213/91, verifica-se que o vínculo do autor com a empresa TAP Manutenção e Engenharia Brasil S/A perdura até a presente data.

Neste contexto e considerando que a implementação dos requisitos para recebimento do benefício após a entrada do requerimento administrativo pode ser considerada como fato superveniente, desde que ocorridas até o momento da sentença, nos termos do artigo 462 do CPC:

Art. 462. Se, depois da propositura da ação, algum fato constitutivo, modificativo ou extintivo do direito influir no julgamento da lide, caberá ao juiz tomá-lo em consideração, de ofício ou a requerimento da parte, no momento de proferir a sentença.

O mesmo procedimento está consolidado administrativamente na Instrução Normativa nº 45/2011:

Artigo 623. Se por ocasião do despacho, for verificado que na DER o segurado não satisfazia as condições mínimas exigidas para a concessão do benefício pleiteado, mas que os completou em momento posterior ao pedido inicial, será dispensada nova habilitação, admitindo-se, apenas, a reafirmação da DER.

Tal prática deve ser adotada naqueles processos em que seja necessário o cumprimento de pequeno lapso temporal após a DER para o implemento das condições necessárias à concessão da aposentadoria, tendo em vista que apenas a averbação do tempo de serviço reconhecido judicialmente para fins de futuro pedido de aposentadoria levaria à perda do direito do segurado às parcelas vencidas desde a implementação do tempo de serviço (posterior a DER) até a apresentação de um novo requerimento após o trânsito em julgado, ou na situação em que há uma diminuição significativa da renda por um pequeno lapso temporal.

No presente caso, deve ser reafirmada a DER para o dia 17/10/2011, situação que dá direito à aposentadoria integral por completar 35 anos de contribuição, a ser calculada com renda mensal de 100% do salário-de-benefício e incidência do fator previdenciário, nos termos dos artigos 52 e 53, incisos I e II, da Lei nº 8.213/91, c/c o artigo 201, § 7º, da Constituição Federal.

Assim, cumprindo com os requisitos tempo de serviço e carência, a parte autora tem direito à implementação do benefício de aposentadoria por tempo de serviço/contribuição a contar da data do ajuizamento da ação e ao pagamento das parcelas vencidas desde então.

(…)

TRF-4

CONCLUSÃO.

          Como o amigo leitor pôde observar a Aposentadoria Especial, em geral, é  concedida num período de trabalho mais curto, ou seja, 15, 20 ou 25 anos de trabalho  em contato com agentes nocivos/prejudiciais à saúde, inclusive com um benefício mais vantajoso, pois não incide fator previdenciário, isto é, não há descontos no benefício. Em outras palavras: se aposenta mais cedo com um benefício melhor.

          No presente caso, desde que devidamente comprovado o trabalho insalubre, mediante PPP e LTCAT, além de eventual perícia no local de trabalho, a aposentadoria poderá ser concedida demonstrando/comprovando o período de trabalho por 25 anos, já que, em regra, neste caso os mesmos (pintores) estão expostos a graxa, solventes, hidrocarbonetos, dentre outros.

          Pensamos ter lhe ajudado a compreender um pouco mais sobre o assunto. O tema, porém, é complexo e, caso queira mais informações; ou queira fazer algum comentário; ou, ainda, caso tenha restado alguma dúvida, poste-os abaixo. Terei o maior prazer em ajudar.

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